15.7.09

Tributo a Juvêncio Dias de Arruda Câmara

Alex Fiúza de Mello
Juvêncio partiu sem ter tido tempo de dizer adeus. Também não avisou, desta vez, de seus passos, como de costume, em seu blog. Diante da notícia imprevista de sua doença incurável, simplesmente congelou as postagens, antecipou desculpas por “problemas técnicos”, recolheu-se, em silêncio, entre os seus mais próximos, e ensaiou um último e indizível ato existencial, sem comments, vivido interiormente na dor consciente e lúcida de seu iminente ocaso.
Também em sua hora final “Juca” rasgou os scripts, surpreendeu a todos, não esperou mais tempo, negou o “normal”, o “lógico” – e manteve tudo inconcluso, polêmico, surpreendente, em plena sintonia com tudo o que fez e defendeu em vida.
Economista de formação, mas profissional da comunicação por opção e paixão – sem diploma específico, como ria e se orgulhava –, foi nesta área de atuação que deixou a sua maior e melhor contribuição à sociedade paraense. Seu blog Quinta Emenda, hoje um ícone da mídia local e regional, já havia alcançado no último mês de junho uma impressionante média de 2.000 consultas diárias e seguia um rumo consagrador que colocaria o seu mentor, muito em breve, em destaque nacional. Referência obrigatória para todos os leitores interessados em notícias de última hora e de conteúdo confiável, com comentários e análises instigantes e honestas, o Quinta inovou na linguagem e no estilo de fazer jornalismo. Pérolas que marcarão a memória da imprensa paraense – como “Nova Délhi” (Belém vista em seu subdesenvolvimento caótico), “Ivecezal” e “Folha Nariguda” (denúncia humorada à parcialidade dos dois maiores veículos da imprensa local), “Nacional”, “Tapiocouto”, “Jatemar”, “Sobrancelhudo” (referência satírica a políticos da terra) –, criaram uma forma de denúncia, com humor e sarcasmo, da mediocridade, improbidade e mandonismo ultrapassado dos donos do poder local e das elites periféricas e improdutivas. Para “Juca”, a injustiça, no Pará, era tanta e desmedida, que, inclusive, vestia toga. E não por acaso sua última postagem no blog Quinta Emenda, autorizada em cama, já doente, em favor de Lúcio Flávio Pinto, foi contra os abusos do Poder Judiciário dessa terra de impunidades, sem lei, sem ética, sem direitos, sem vergonha, que lhe faziam sentir-se um permanente estrangeiro em sua própria pátria.
Seu mal-estar em permanecer num ambiente politicamente inóspito fez com que já estivesse planejando sair de Belém e do Pará, a contra-gosto, num ato de protesto contra o status quo dominante e como um exercício de sobrevivência intelectual e moral. Não via, a curto prazo, luz no fim do túnel, a contar a ausência de perspectivas num meio político contaminado pela metástase da corrupção e do oportunismo demagógico.
Juvêncio defendeu, sim, ao longo de sua biografia uma tese (a única concluída) com distinção e louvor: a da honestidade e da coerência. Qualificou-se nesses itens, como profissional e como homem, a exemplo de poucos (incluídos os doutores de beca), condição e referência que lhe lastrearam admiração e respeito por tudo o que escrevia e informava, até de seus adversários mais ilustres – que no momento do adeus, qual num filme de Felini, lhe mandaram, despudoradamente, flores.
Hoje, depois das últimas tribulações, Juvêncio descansa em paz, ao lado de seus entes queridos. Foi-se fisicamente, sim, mas permanece entre nós, na lembrança, como modelo àqueles que lutam por cidadania plena num país sem república, pelos direitos humanos numa terra de exclusão e por prerrogativas democráticas numa nação de cultura patrimonialista e autoritária.
Obrigado, caro Juca, por teres existido; pela originalidade, oportunidade e justeza de tuas reflexões e escritos. Pela coragem e força de tuas palavras e criações. Ainda que por pouco tempo (menos do que pretendias), conseguistes incomodar os acomodados na impunidade e nos privilégios – os “grandes ladrões”, como os define o poeta Jorge de Lima. Deles, um dia, de tão miúdos e desprezíveis, não restarão que cinzas e esquecimento. Ao contrário, tu permanecerás, para além deles, pela boa e memorável influência de tua obra e exemplo de caráter. Para parafrasear Mario Quintana: eles passarão; tu, passarinho... Voa, então, para sempre, em paz!

41 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns!!!
Muito bonito seu tributo.

Anônimo disse...

Sem comentários, professor Alex. Precioso texto, bem à altura do nosso querido Juca que escreveu e continuará a escrever sua história através de seu legado em nossa amada e maltratada Belém.
Salve, Juca!

Anônimo disse...

Belo... Belíssimo texto. Merecido.

AMORES & POEMAS disse...

alex fiúza de melo mais uma vez matando a pau, foi maravilhoso oq ele escreveu e descreve perfeitamente oq pensamos nós amigos e fãs de juva.

marise querida... queria que vc desse uma olhada em meu blog... terradedireitos.blogspot.com... tem uma homenagem la pro nosso juvencio... permanente!!! abraços e espero que vcs ai estejam bem, na medida do possivel!!!!

Anônimo disse...

perfeito oq alex fiuza fala sobre juvencio... nao da nem pra comentar em cima!!!

insuperavel sem sombra de duvida...
marise... nao sei ate quando o blog vai ficar funcionando, portanto eu queria que vc entrasse em meu blog e visse a homenagem que fiz a juvencio...

www.terra de direitos.blogspot.com (Espaço Juvencio de Arruda Camara) Permanente!!!

e tem mais surpresas vindo em homenagem ao meu mestre no decorrer do ano, aguardem!!!

com carinho...
bruno calheiros.

Anônimo disse...

Belíssimo texto.
Belíssimas palavras.

Mauricio disse...

É a mais pura verdade...
O trabalho de Juca fará falta no cenário em que vivemos!

Anônimo disse...

Parabéns, caro Alex, pela merecida homenagem ao Juvêncio. Fiquei honrado e emocionado quando soube que a última postagem dele neste blog foi a reprodução da mensagem que enviei aos meus leitores logo depois de receber a informação sobre a minha condenação pelo juiz Raimundo das Chagas Filho. Foi iniciativa de homem sempre ligado nos acontecimentos e decisão de pessoa generosa, como ele foi. O gesto arrematou, no último momento em que Juvêncio comandou sua Quinta Emenda, os atos anteriores de afeição de que ele foi pródigo´para comigo e tantos outros. Minha solidariedade à família e minha integração a essa rede de consternação pela partida tão precoce e súbita do Juvêncio de Arruda. Lúcio Flávio Pinto

JOSÉ DE ALENCAR disse...

Caríssimo Alex.

Receba minhas homenagens pelo tributo a altura de ambos.
Juvêncio merece a imortalidade que agora tem, por direito de conquista.
Juvêncio vive!
Viva Juvêncio!

Val-André Mutran disse...

Magnífico Reitor Alex Fiúza de Mello.
Seu texto levou-me à emoção, contido que estava desde o choque da notícia que nunca queríamos ouvir.
Tive o privilégio de reunir-me consigo e com nosso imortal aqui em Brasília num encontro agradável, como sempre ocorreu em nossos dois encontros anteriores.
A nossa angústia só permanecerá enquanto saudade do meu mestre, como o tratava.
Que seu exemplo frutifique, amplie sua indignação reverberando no meio do povo; grite, fale alto nas consciências daqueles que fazem da política, não o exercício da mais bela ciência social, como é sempre o esperado e quase nunca cumprido.
Mas, a efetivação do compromisso com os menos favorecidos...
Enfim. Se dar, sem se locupletar.
Saudades. É só o que tenho agora.
Esperança, é o que ele me ensinou e vou tratá-la com atos.
Amém.

Anônimo disse...

Juca!!!!!!!!!!!!!

marcelo gil castelo branco disse...

Alex,ninguem seria capaz de fazer um tributo tão bonito ao juca como voce embora eu saiba que jamais gostaria de faze-lo.A amizade de voces desde quando éramos garotos no colégio sempre foi muito forte.Nosso arqueiro da turma 11 se foi.Deixa um vazio imenso em nossos corações,abraço amigo,Marcelo Gil castelo Branco

Adelina Braglia disse...

Prezado Alex,

pela primeira vez, a meu critério, um reitor (mesmo que recente ex) fez por merecer o título de Magnífico.

Um grande abraço.

LUCIBALDO disse...

acompanhei juvencio por mais de 3 ANOS, MUITA FALTA ELE FARA, FIQUE COM DEUS

LUCIBALDO FRANCO
SANTANA DO ARAGUAIA

Ananindeua Debates disse...

Parabéns ex-reitor, salve Juca...

Adelina Braglia disse...

Aos queridos companheiros que mantém o Quinta:

é muito, muito importante amanhecer e encontrar a casa aberta.

Obrigada, um abraço.

Anônimo disse...

Alex, mesmo sem ser mais o reitor, você continua, mesmo, magnífico."Com todo o respeito, é claro".Que falta o Juca faz a essa terra sem direitos!!! Nova Deli ficou bem pior. Tenho uma sugestão:o Quinta poderia ser alimentado pelos leitores e abastecido com as notícias de todos que têm fontes fidedignas. O poster e moderador seria o Lúcio Flávio Pinto. Acho que o Juca iria aprovar. E os que têm ficha suja iriam se apavorar( rsrsrsrsr).
Juca forever !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Anônimo disse...

Caro Alex
Magnifico tributo ao Juca, repleto de emoção e de verdades. A família do Juvêncio e particularmente a Silvia minhas sinceras condolências.A figura do Juca e o Quinta farão muita falta.
Luiz Otávio e Ana Laura.

Reginaldo Ramos disse...

Agora tenho a dimensão de que li o que de melhor havia para ser lido, em matéria de informação, nos ultimos anos.
Inteirei com o grande dono do 5ª. Obtive resposta, repliquei e fui replicado.
Vou guardar isso imediatamente.
Vou mostrar aos meus filhos, guando não mais estivermos na ditadura da grande imprensa, quem foram os precussores.
Parabens ao nosso inteligentíssimo Reitor!
Parabens, família Arruda, pelo inteligentíssimo Juva!

João Carlos Rodrigues disse...

Disseste tudo, magnífico reitor.
Que possamos seguir os ricos exemplos deixados pelo nosso Juca.

Anônimo disse...

Ao ler o Tributo a Juvêncio pelas mão do Magnífico Prof. Alex Fiúza de Mello, tenho a certeza que o JUVÊNCIO fará muita falta!!!!
Obrigado, para nós fãs do Juvêncio essas palavras são como balsamo.

Anônimo disse...

onde vc estiver faça o que mais sabe, escrever e detoner os maus exemplos de politicos laboes..uma enterna paz pra vc juca..

Anônimo disse...

Alex,
Como sempre, com as palavras certas, na hora certa. Obrigada por nos contemplar mais uma vez, de forma digna e honrada, como o fizeste ao longo destes oito anos na administração da UFPA. Nosso tão querido Juca bem sabia disto.
Carol

Danielle Redig disse...

Que saudade do Juca e de suas informações.

Magnífico reitor, belo texto, bela homenagem. Mais que merecida.

Fica meu carinho a família.

Diógenes Brandão disse...

eis aí, um belo exemplo do respeito que um homem pode acumular e justamente por ser o Juca que como tantos por aqui não possuem diploma - e nem sentem falta.

Parabéns Alex! Não sei se a forma de falares agora livre da formalidade de outrora não foi indutora de tanta força viceral à exemplo do Magnifíco poster que descança(?) em paz!

Diógenes Brandão disse...

Ah, esqueci de dizer que talvez essa sua postagem seja a última ou melhor a primeira, caso a família mantenha o Quinta Aberto.

Vânia disse...

Belo texto! Prova de uma grande amizade e a certeza de que Juca foi um Grande Homem. Descansa em paz Juvêncio! Deus vai cuidar da sua familia.

Vânia Pereira Maia.

Ivana Oliveira disse...

Palavra magníficas, Reitor! Um tributo mais que merecido... Abs Ivana Oliveira

Dirceu Matrangolo disse...

Sou um rapaz de sorte. Ainda que por pouco tempo, apenas dois anos, tive a honra de conviver e ser amigo de Juvêncio Arruda. Sua inteligência rara, sua pena sem pena, seu humor refinado educaram meu olhar sobre as coisas de Belém e do Pará, terra que passei a conhecer e gostar.
Com as bençãos de Juvêncio também fiz novos amigos - Orly, Ronaldo e o brilhante professor Alex Fiúza, a quem aprendi a admirar e ouvir.
O tocante tributo de Alex Fiúza dá a dimensão da importância de Juvêncio Arruda para a história dessa terra.

Anônimo disse...

Pessoas, é incrível como, mesmo com a partida do Juca (do corpo, porque em espírito ele estará sempre aqui)continuo vindo ao Quinta dar uma olhadinha. Força a família. Gostaria de saber onde e que horas será a missa de 7º dia. Obrigada. Claudia

Alex Fiúza de Mello disse...

A todos os que se manifestaram em relação ao texto, agradeço, pessoalmente (e sensibilizado), as palavras a mim dirigidas, mas transfiro-as, in totum, ao homenageado. Não foi fácil, acreditem, escrever este Tributo ao nosso querido e já saudoso amigo (meu, de muitos anos!!!). A dificuldade foi controlar a emoção, utilizá-la de forma fecunda e não intimista, e dar relevo à figura do Juca naquilo que ela, de fato, podia representar em termos históricos (mais do que pessoais). Como Anatole France escreveu que não há fatos históricos, senão interpretações que dão dimensão histórica a fatos e se impõem a posteri no consciente coletivo, achei por bem registrar, por justiça, um pouco do que o Juvêncio representou, sobretudo nos últimos anos (em sua plena maturidade humana e intelectual, segundo uma interpretação possível (que parece ser a de muitos e não só minha, felizmente!), para essa terra. Que bom que, pela repercussão do texto, pelo menos não diminuí a importância do amigo por meio de minhas palavras (estas, sempre limitadas e pobres diante do conteúdo da existência). Ele merece, sim, todas as homenagens possíveis de seus leitores, amigos e cidadãos deste estado, que ainda não perderam a esperança de lutar, como ele, por uma terra de direitos e um mundo melhor.

Carmem disse...

Um tributo digno do Juvêncio.

Arianne Araujo disse...

Um magnífico tributo, a um brilhante homem que se eternizou, por alguém que usa as 'bem-ditas' palavras.
Lindo, Alex!

Arianne Araujo disse...

Um magnífico tributo, a um brilhante homem que se eternizou, por alguém que usa as 'bem-ditas' palavras.
Lindo, Alex!

Anônimo disse...

Além do L F Pinto, sugiro mais o Alex Fiúza p darem continuidade a este blog. Duas pessoas brilhantes e de inquestionáveis valores éticos e morais.
Pensemos nisto. Nós, viciados no quinta e os dois, além de td, amigos do Juca.

THOMERIUS SEVERUS HINTOLERANTIUS MAXIMUS disse...

Brilhante Texto do Alex Fiuza de Melo.

Infelizmente choramos a ausencia dos bons...
Lamentamos sempre a perda de quem soma...
E sentimos saudades. E saudades é a sensação de vazio causada pela ausencia de entes queridos que amamos e respeitamos.
INFELIZMENTE nossa sociedade perdeu um de seus mais valorosos críticos. Os hipócritas não lamentam...até se aliviam...mas as críticas aconteceram por outros tantos "Juvencios" que virão. Esse foi o seu legado e, em sua memória, as críticas precisam continuar em "Nova Delhi".

Durma Juvencio o sono dos eleitos.

THOMERHIUS

Anônimo disse...

magnífico,Brilhante Texto Alex:
eles passarão; tu, passarinho... Voa, então, para sempre, em paz!
Resumiu tudo.

ELizeu Chagas
Assessor da SEIR
Ex- Vice secretário da JPT/PA.

Anônimo disse...

Há uma diferença imensa entre o Quinta Emenda e outros blogs de crítica, como o Bilhetim, do Edir Veiga e o do Barata. As diferenças são muitas: seriedade, profissionalismo, transparência, autonomia, caráter, retidão. Perdemos muito com a ida do Juca. Ficam os insanos e medíocres na blogosfera... Triste, tristíssima Belém!!! Ai de ti!!!

Anônimo disse...

"Juvêncio Dias de Arruda Câmara (1955-2009): O irreverente e sarcástico Juca, o maior blogueiro político do Pará", é o título da matéria publicada ontem (20) na Folha de S.Paulo. Alguém que tenha senha por favor disponibilize a matéria aqui. Queremos ler.

Passarim disse...

Juvêncio,um amigo e companheiro virtual de nossos blogues políticos. Vai fazer falta...

Saudades do Blogueiro Jarbas Cordeiro de Campos - de Minas Gerais.

Guilherme disse...

Juca além de excelente blogueiro, era também bom goleiro e mandava ver nas nossas "peladas" ginasianas do Colegio Moderno.Que na seleção escalada por Deus, teu lugar como titular já esteja reservado.

Saudades do colega e amigo,

Guilherme Soares