2.12.06

Tempos e Mores

Surgiu a sombra de uma jaça, por alguns momentos, no discurso do desembargador Milton Nobre, presidente do TJ paroara, ontem ao cair da tarde, na inauguração do Palácio da Justiça.
Justamente na presença da mais alta autoridade do judiciário brasileiro, a presidente do STF, a ministra Ellen Gracie.
Ao responsabilizar a imprensa pela revolta da sociedade brasileira contra a abusiva, ilegal, inútil e perniciosa tentativa dos TJ's de escapar dos tetos salariais, Sua Excelencia quis culpar a janela pela paisagem.
Que pena.
Igualou-se, no gesto, às reações dos parlamentares quando a sociedade lhes exigiu o fim do voto secreto, o fim dos 90 dias de férias anuais, o fim das convocações extraordinárias remuneradas, privilégios insuportáveis finalmente varridos para a lixeira da história política brasileira.
O presidente Nobre- o blog estende as duas mãos à palmatória - não falou só em seu nome.
Foi o porta voz dos quase 3000 membros do judiciário brasileiro que recebem ilegalmente os recursos do povo.
Mas foi também, e principalmente, a voz do sentimento da média do judiciário, que resistiu à criação do CNJ, que resistiu ao nepotismo, que sucumbe aos privilégios, que não viu o tempo passar sob suas sentenças, que não viu o mundo mudar sob suas togas.
Subiu no ar uma nuança acre de paroxismo quando Sua Excelencia atribuiu à imprensa a tentativa de macular a imagem de todo o judiciário por míseros 1,5% do total dos membros do poder - aqueles que estão, com efeito, fora da lei, decerto na suposição que tão ínfimo percentual pudesse ser tomado como uma aceitável margem de erro estatístico.
O mesmo raciocínio poderia aceitar, por extensão, que a imprensa estaria sendo injusta com alguém que desviasse apenas 1,5% dos recursos públicos.
Ou ainda que seria tolerável se o nazismo tivesse exterminado apenas 1,5% dos 10 milhões de judeus na 2a Guerra.
Mas não é uma zona assintótica - um mistério que a Matemática ainda não teve tempo de resolver- que está em discussão, senão o princípio da universalização no alcance e aplicação da lei, sem o qual a justiça se torna assimétrica, deformada, reabrindo as portas para a sociedade da barbárie, para o passado.
A presidente do Supremo, que falou imediatamente antes, não mexeu um só músculo de sua melodiosa face.
Aos presidentes dos TJ's, no início desta semana, ela deu-lhes o aviso: acabou. E ponto.
Todos vão receber o teto estabelecido pela lei, e devolver as diferenças recebidas a maior.
Nas barras do Supremo? Que seja, é pena, mas será.
E ponto.
Isto sim garante um judiciário sem mácula, e lhe retorna mais um pouco da credibilidade tragada por um passado que ainda insiste em resistir ao tempo.
Antes da serena ministra, falaram o presidente da OAB-PA e o procurador geral do MPE, que deixaram escapar uma oportunidade ímpar de dizer aos presentes o que pensam os defensores da lei e os guardiões dos intereses da sociedade frente aos atos do estado.
Talvez porque não sejam, ou não se sintam, ainda, nem uma coisa, nem outra.
Também para os dois o tempo ainda não passou.

A corte assistiu em silencio.
E na avenida em frente ao Palácio, naquele fast motion das luzes no asfalto molhado das canções de Arrigo Barnabé, o tempo continuava, rápido, sem olhar para trás.
Igual a vida das pessoas.
Eles, lá dentro, precisam se ver assim. É o que são.


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Peço desculpas por não poder cumprir o prometido escrevendo os posts sobre Keynes e Gramsci.
São duas e meia da manhã e ainda preciso fazer meus últimos apontamentos da mesa redonda da CNBB amanhã.
Mas os dois maiores pensadores do século que ainda não acabou, como demonstram os mores deste post, estão certos prá domingo.
Os muito curiosos nos potins da festa podem dar uma passadinha nos comentários do post abaixo, o Répiauer, onde um bem humorado, generoso e observador comentarista do blog conta quase tudo certo. Quase.

12 comentários:

Jubal Cabral Filho disse...

Pois é.
Talvez o Nobre Milton quizesse se referir aos 1,5% dos jornalistas /radialistas que estão em órgãos oficiais ou oficiosos extorquindo míseros reais de seus leitores/ouvintes.
Ou aos 1,5% de trabalhadores que usufruem de mordomias especiais tais como carro, comida e roupa lavada por conta do erário público, tais como sem-terra, sem-casa e outros sem-vergonhas.
Mas, os 1,5% acontecem em todas as classes trabalhadoras: deputados sanguessugas, advogados pistoleiros, bacharéis picaretas, médico sem diploma, empresários pilantras, etc.
Pena realmente é que o Nobre Milton não tivesse ficado nas exaltações do novo Palácio da Justiça e tivesse exortado seus pares (e ímpares) a ficar só com que lhes é permitido por lei,devolvendo, sem a necessidade do STF obrigar, o que não lhes pertence mais.
Pena que ele não tenha tido, junto com seus pares (e ímpares), uma atitude mais humana e aproveitado os valores gastos com o grude, com o transporte e com a pompa para fazer um Natal mais feliz para muitos, mas muito mais que os 1,5%, que não terão nada nas suas ceias diárias (quanto mais a natalina) e continuarão se refastelar com sobras pelas ruas da cidade das mangueiras.
Pena mesmo!

Jeso Carneiro disse...

Onde o leitor/eleitor/cidadão paraense poderia ler um texto tão instigante, tão prenhe de reflexões e agarra-nos pra travar o bom debate? Parabéns, Juvêncio. Magistral. Belo. Ofuscou, bastante, a inauguração do novo prédio do TJ paroara.

Juvencio de Arruda disse...

Muito obrigado,Jeso.
Mas devo dizer que a intenção foi a de lançar um pouco de luz sobre o fato,para tomar emprestado o slogan de seu jornal A Gazeta de Santarém.
Um abraço.

Anônimo disse...

Não há dúvidas: o texto é magnífico.

oliver disse...

Nesse caso, compadre, lerei só na terça-feira, pois viajo no domingo. Bom domingo!

oliver disse...

Em tempo: parabéns pelo texto.

Juvencio de Arruda disse...

Obrigado, compadre.
Mas deve ser um ótimo destino esse, longe da internet...rs.
Boa viagem e até terça.

Juvencio de Arruda disse...

Jubalino, é pena.
Bom domingo, amigo.

Yúdice Randol disse...

Juvêncio, fiquei sem fôlego ao ler o texto. Dessa vez você se superou. Pelo conteúdo perfeito e estilo elegante e arrasador, deve ter sido o melhor post seu que já li, desde que me tornei seu leitor diário, há alguns meses - certamente porque vivo nesse mundo (e trabalho naquele prédio). Coisas que vejo e sei não podem ser ditas tão abertamente - afinal, tenho um DAS -, mas podem ser vasculhadas no Diário Oficial.
Seu texto deveria ser reproduzido em todos os jornais do país amanhã. Devia, sim.

Anônimo disse...

8 x 23 disse ...

Juca,

Sou mais um a parabenizá-lo pelo belo texto. Fiz primeiramente por telefone e, agora, faço questão de deixar registrado. Isso torna o seu blog, disparado, o melhor dessas bandas. Bola pra frente ...

Juvencio de Arruda disse...

Obrigadíssimo a todos os elogios.
Ao Anonimo, ao compadre, ao mestre Yúdice,ao Jubal -que fez seu melhor comentário aqui no Quinta -e ao Oito, velho comentarista aqui do blog.

Jubal Cabral Filho disse...

Tô aprendendo contigo, velho amigo ou amigo velho?