17.3.06

A História de Uma Fraude

Da coluna de Elias Pinto, no Diário do Pará de hoje, reproduzindo artigo de seu irmão, o jornalista Lúcio Flávio Pinto

“O Liberal” X IVC

O artigo a seguir, intitulado “Quem é que lê O Liberal? Agora o IVC responde”, de Lúcio Flávio Pinto, foi transcrito do Jornal Pessoal, que chega hoje às bancas.

O Liberal vende menos jornais do que duas décadas atrás.
Nos dias de semana sua circulação efetivamente paga gravita em torno de 14 mil exemplares, isso num Estado com sete milhões de habitantes. Aos domingos, a venda se incrementa, mas não ultrapassa 40 mil exemplares.
A tendência é de queda – e continuada.
Do primeiro semestre para o segundo semestre do ano passado, o jornal perdeu cinco mil leitores. Na média de domingo do primeiro semestre de 2005, para dar o maior exemplo, as vendas totais eram de 41.451 exemplares. Caíram para 39.091 no segundo semestre. Houve perda de leitores em todos os dias da semana, exceto nas terças-feiras, em que permaneceram estabilizadas.
Os dados – surpreendentes e chocantes – se tornaram públicos no último domingo, quando foram divulgados pelo concorrente e inimigo mortal, o Diário do Pará. O jornal de Jader Barbalho teve acesso aos boletins do IVC, o Instituto Verificador de Circulação, com sede no Rio de Janeiro.
A família Maiorana tem se valido da filiação do seu jornal ao IVC, o único do Norte nessa condição, para dar aparência de credibilidade e de poder à sua profusa propaganda sobre a extraordinária tiragem de O Liberal, superior à de qualquer outro jornal da Bahia para cima.
Os dois últimos boletins semanais do IVC comprovaram a falsidade dos dados divulgados.
O editor de O Liberal prestou ao IVC a “informação jurada”, conforme o jargão técnico, de que a circulação líquida paga do jornal aos domingos seria de 89.419 exemplares. O instituto verificou que o número verdadeiro era 129% menor, restringindo-se a 39.091 jornais. Os 53.198 exemplares que teriam sido impressos, mas não foram vendidos ao público, constituiriam “circulação grátis”.
A ser verdadeira a espantosa informação, para cada exemplar que vende, a Delta Publicidade – responsável pela edição do jornal – dá como cortesia 1,4 exemplar.Talvez não exista fenômeno semelhante na imprensa mundial, hoje e nunca. Em cada semana do segundo semestre de 2005, a empresa da família Maiorana vendeu 120 mil exemplares de O Liberal e teria distribuído gratuitamente outros 197 mil exemplares. Sem contar 33 mil exemplares de encalhe ou inutilizados.
Para um total de 101 mil exemplares que sairiam da impressora prestes a ser substituída por uma nova máquina, apenas 39 mil exemplares seriam vendidos.Se de fato há essa imensa cortesia, para quem esses mais de 50 mil jornais dominicais são entregues? Como é que a empresa consegue arcar com esses custos, se de fato imprime os 101 mil exemplares?
Como os relatórios do IVC se restringem a mensurar a circulação líquida paga, deixam de oferecer respostas para tais dúvidas. No entanto, elas são muito graves.
Talvez nenhuma empresa jornalística desrespeitou tanto o compromisso com a informação jurada do que a dos Maiorana. A diferença entre a circulação de O Liberal declarada pelo editor e a apurada pelo IVC varia em torno de 150%, indo do limite mínimo de 124% no domingo até 160% na terça-feira. Na análise comparativa da movimentação geral da circulação líquida paga verifica-se uma queda de mais de 50% no domingo, entre o 1º e o 2º semestre de 2005, de 88.250 exemplares para 41.451.
A gratuidade teria sido expurgada do cálculo? Por qualquer fato que seja, o grupo decidiu desistir de bancar a fantasia?Só mesmo os donos do grupo Liberal podem responder neste momento, mas é óbvio que eles não se interessam em esclarecer o distinto público.
A divulgação, pela primeira vez, dos primeiros relatórios auditoriais do IVC sobre O Liberal acabaram com alguns mitos criados pela propaganda da empresa e confirmaram determinadas interpretações.
A circulação do jornal é declinante e não ascendente.
Por esse critério, não há necessidade de aumentar a capacidade de impressão porque há menos exemplares a imprimir. Ao contrário do que proclama seu título, O Liberal não é o jornal da Amazônia. É, na essência, belenense: mais de 80% de sua circulação se restringe ao município da capital, com seus 1,3 milhão de habitantes.
Em Ananindeua, com 400 mil moradores, na região metropolitana de Belém, o jornal vende 166 exemplares no domingo e menos de um terço nos dias de semana (além de 478 assinaturas).
Em Santarém, com 270 mil habitantes, a venda é em torno de 130 exemplares.
A maior vendagem no interior é em Castanhal: 500 exemplares aos domingos e em torno de 200 nos dias da semana.
Em Salinas: 464 exemplares aos domingos e ao redor de 130 nos dias da semana. Na região amazônica, o único local com venda de O Liberal é Macapá, capital do Amapá, mas praticamente só aos domingos (336 exemplares).
Nos demais Estados, o jornal não existe.
Uma parte da perda de leitores de O Liberal se deve ao outro diário da casa, o Amazônia Jornal (que é menos amazônico ainda do que o irmão mais velho). Quando a edição dominical de O Liberal se tornou mais cara, o sucedâneo mais barato (um terço do preço) aumentou sua circulação, porém só aos domingos. Nos dias da semana ela caiu a menos da metade ou mesmo a pouco mais de um terço, como aos sábados, entre a 2ª quinzena de 2004 e a 1ª de 2005. A partir daí se estabilizou. Terminou o ano passado com pouco mais de 7 mil exemplares aos domingos e 4,5 mil nos dias da semana.
Ou seja: está mais para concorrer com o Jornal Pessoal do que com o Diário do Pará.
Somadas as tiragens dos dois diários do grupo Liberal, ainda assim o resultado está muito aquém não só das declarações da empresa como dos números alcançados em um passado já distante. Constata-se que apenas um terço dos leitores que compram O Liberal aos domingos o lêem nos outros dias da semana. A maioria só o lê mesmo aos domingos.
Uma parcela considerável desses leitores dominicais é induzida pela emissora de televisão dos Maiorana e sua poderosa madrinha, a Rede Globo, que veiculam intensa propaganda do jornal e criam demanda para seu caderno especializado, produzido pelo jornal O Globo, dedicado exatamente à TV.
Até quando esse excepcional apoio será possível? E até quando evitará que a queda no índice de leitura se acentue ainda mais?
Talvez o tempo responda essas perguntas, mais cedo do que se possa imaginar.

2 comentários:

Anônimo disse...

Eu acho que a cortesia tem ido pro Ver-o-Peso, entregue aos feirantes pra embrulhar peixe.
Penso que boa parte da queda na venda desse periódico, se deve não somente a crise que assola os jornais impressos no mundo todo, crise essa acirrada (segundo os entendidos!)pela internet.
Muito dessa queda se deve também a falta de credibilidade desse periódico.

Agora deixa eu ir que preciso comprar o Jornal Pessoal


Cláudio

Juvencio de Arruda disse...

Vc tem razão. Falta credibilidade e muito mais àquela pocilga.

Mas infelizmente só teremos uma nova edição do JP em janeiro.