28.4.06

Separando as Águas

Dois interessantes comentários, postados ontem, na nota Novidades na Galiléia, merecem uma reflexão que gostaria de dividir com os leitores do blog. Por isso respondo aqui, no que apelidei de "ribalta", o front view do blog.
Em resumo, os comentaristas manifestam suas preocupações com o que consideram exagero no uso de algemas, desconfiam da qualidade das investigações, vêem a possibilidade de perseguição política e, por fim, criticam a espetacularização com que a mídia tratou o episódio, além de condenar a liberação das imagens da PF sómente à Rede Globo, aqui TV Liberal.

Para além dessas considerações, o Diário do Pará de hoje, em matéria no caderno Cidades, informa a posição da OAB, na palavra de seu presidente Ophir Cavalcanti, e tenta fazer do educado e competente promotor Aldir Viana um porta voz do Ministério Público Estadual, o que não é verdadeiro, nem correto.

Não há como não começar pelo mérito da questão: uma denúncia, quatro meses de investigação, sigilos telefonicos quebrados, mandados judiciais de prisão, e busca e aprensão. A operação não caiu do céu por descuido.

Respeito a opinião de quem considera pirotécnica a ação, embora desconfie que ninguém ousaria acionar um Juiz Federal, ou um procurador da República, ou um Delegado da PF, com este mote.
O "jus espernenandi" cabe num espaço informal como este ( e outros) blogs, ou num discurso de qualquer político, cabo eleitoral ou arrecadador, enfim, gente do ramo.

Cabe também no coração de quem ainda não se acostumou com a virada dos ventos, quem tem algum tipo de simpatia pelo ex senador Ademir Andrade e demais envolvidos.
É legítimo isso? É sim, embora talvez não seja racional.

Pergunta um dos comentaristas como ficam as famílias dos acusados, ao ver seus parentes expostos, é verdade, a situações constrangedoras perante à opinião pública.
Pergunto se os acusados consultaram seus familiares, antes de encetarem as situações que os levaram a essa cena vexatória?
Ou aos contribuintes, se aprovariam o desvio dos recursos?
Ou à sociedade, subtraída de atendimento e provimento pelo desvio dessas verbas?
É claro que lamento pelos tres, pois tenho cetrteza que não foram, todos eles, sabedores antecipados do que acontecia nos armazéns da CDP.
Mas não posso, sinceramente, achar nada mais além disso, ou usar isso como argumento, ainda que acessório, para desqualificar a operação.

Mas porque as algemas, perguntam a OAB e o promotor Aldir Viana.
O assessor de imprensa da PF responde parte da questão, ao citar o exemplo do menino carioca de 17 anos, que se jogou do sexto andar do prédio que morava, ao ser preso num caso de pedofilia na internet. Resultado: estão na Corregedoria os policiais envolvidos naquela operação.
Alguém aí vai dizer que aqueles policiais não tem responsabilidade no episódio?
Tem sim. Ele já havia recebido voz de prisão e, portanto, estava sob a guarda do Estado
Em toda atividade profissional existe o que os médicos chamam de protocolo.
Um código de posturas que é constituído em cima da ocorrência de fenomenos, um controle estatístico de frequencia, que ampara os procedimentos operatórios.
Com base nisso algema-se os presos, aqui e em qualquer lugar do mundo.
É ilegal? Então porque a OAB não questiona, na Justiça, fôro adequado, tais procedimentos, ao invés de -aí sim, pirotécnicamente - balir em cima de casos pontuais.
Pontuais sim, pois nada se fala das prisões com algemas de presos comuns ou de criminosos hediondos, como se roubar dinheiro público assim não o fôsse, talvez o mais hediondo de todos, pois o que detona o estopim de tantos outros.

À tese da perseguição política pergunto o seguinte: perseguição por parte de quem?
Examinemos as possibilidades, todas dramáticas, posto que envolveriam a PF, o MPF e a Justiça Federal no complô.
O PT, no poder federal, não teria interesse em queimar um aliado da densidade de Ademir.Seu partido, bom lembrar, é antigo aliado de Lula.
O PMDB, mais importante apoiador, também não teria interesse na derrocada do ex senador.
PP,PL,PTB francamente, mal conseguem andar com as próprias pernas.
E são aliados de Lula em Brasília, na mesma frente onde está o PSB.
Ah, pode ter sido obra do PSDB, este sim, lá em Brasília e aqui no Pará, em oposição ao PSB e a Ademir.
Aí eu fico curioso para saber como o PSDB conseguiria movimentar 240 policiais federais de 9 estados , a Procuradoria da República no Pará, na pessoa de seu titular, além de um Juiz federal diretor do Foro Judiciário?
Imaginar uma sedição autóctone, tipo um time de "justiceiros" atuando nas tres instituições, convenhamos, é não entender o mínimo de esfera pública, e o máximo de roteiros americanos de filmes B.
Desculpem mas, sinceramente, a perseguição política é uma tese pueril.

A espetacularização da mída, essa satânica entidade, de fato, reverbera os mais íntimos desejos , recalques, interesses de seus proprietários e patrocinadores, é verdade.
Mas ela não prende ninguém, ainda bem.
Considero cabível e salutar a inclusão da mídia neste balaio, extamente na perspectiva colocada pelos comentaristas, mas alerto, sem querer justifica-lo, que esse auê tem sim um lado pedagógico, intimidatório, desestimulador à contravenção.
Ou a mídia também não educa?
Num país completamente devassado pela bandidagem - ou alguém duvida disto? - as imagens das operações que visam refrear a ladroagem são importantíssimas sim.
Tanto que ninguém reclama delas, de novo voltamos ao ponto, quando se trata de ladrões de galinhas.

Também estou de acordo com os comentaristas com as críticas ao fato das liberações das imagens da PF apenas à uma emissora. Deveriam ter cedido à todas elas, por isonomia e para que mais telespectadores pudessem assiti-las. Mas também aí a "culpa" deve ser dividida com as emissoras e com o "jornalismo do furo", que alimenta práticas desta natureza.

Por tudo quanto tenho lido, cada dia concordo mais com a nota do PSB nacional.
Fria, profissional e política.
Como convém à condução de negócios de estado.
Pena que nem todo mundo veja assim.
Mas o blog respeita o contraditório e reconhece o direito à lavagem, na bacia das almas.
E só nela.

8 comentários:

Roberta Mattos disse...

Parabéns! Suas colocações quase chegam à perfeição.

Val-André Mutran disse...

Irretocável.
Algema é para proteger ambos os lados, os policiais e os cidadãos objeto da prisão e ponto.

Anônimo disse...

Prezado jornalista, vejo que infelizmente, distorces o que disse. senão vejamos:
1)não entrei no merito da questão, porque não tive acesso aos autos e porque acredito que até que se prove o contrario todos são inocentes. Portanto, não há como nós, julgarmos sem fundamentos e pior sem o direito amplo e irrestrito a defesa!
2)Quando me referi a familia, disse claramente que era em relação aos casos onde a posterior ficou provado a inocencia dos envolvidos. Existem muitos casos recentes (vide caso SUDAN, onde alguns dos achincalhados, foram inocentados em ultima instancia), onde a familia do acusado foi constrangida de toda forma e depois da prova de inocencia, não houve (e nunca haverá) reparação de igual proporção dos danos causados. Portanto, nestes casos, não haveria como o acusado consultar nenhuma das partes citadas por voce em seu comentario, já que nada foi feito por esta pessoa!!!!
Por fim, gostaria de deixar claro que não nutro qualquer simpatia, nem possuo vinculo de nenhuma especie com o ex-senador ademir, apenas me posiciono naquilo que acredito. Já que, mesmo que haja apenas 0,0000001% de chance dos acusados serem inocentes, ate que se julgue o contrario, todos, sem excessão poderão ser considerados: bandidos, ladrões, ou quaisquer adjetivos similiares a estes.
Sem mais, agradeço a oportunidade de poder discordar de voce.

Juvencio de Arruda disse...

Prezado Anonimo.
Em primeiro lugar obrigado por retornar ao blog com suas considerações. Este é um dos objetivos do blog.
Em segundo, agradeço eu a oportunidade do debate.
E agora comento seu comentário.

1.Quanto a distorcer suas opiniões,não é o meu entendimento.
Não comentei as suas razões para não entrar no mérito.
Apenas declinei as minhas para faze-lo.E parte do autos tem sido divulgada, em seguidas matérias e entrevistas pelos meios de comunicação locais:o senhor deve ter visto parte dos "autos", nas imagens feitas na apreensão na casa do senador.Se não viu, deve conhecer alguém que viu.
Concordo que a presunção da inocência é um direito inalienável, assim como a confiança na Justiça.
Os suspeitos acabam de ser liberados num recurso em Brasília, e nem por isso os autos foram cancelados e eles deixaram de ser culpados, ou se tornaram mais inocentes.
Mas insisto em dizer, conforme nota da Justiça Federal, ainda no site www.pa.trf1.gov.br,na data de ontem, o Juiz Rubens Rollo explica as razões da prisão, entre elas os indícios, nos autos,note bem, da tentativa de destruição de provas.
Ora, porque algum implicado haveria de querer destruí-las?
Há fundamentos sim senhor,está sendo garantido o amplo direito de defesa sim senhor, tanto que acabaram de ser soltos - todos - e o proceso caminhará normalmente.

3. Em nenhum momento disse que o senhor se referia, específicamente,à família dos acusados.Eu é que me referi a elas.
No caso SUDAM, conheço pesoalmente uma das famílias atingidas pelas denúncias, mais tarde não comprovadas em relação ao chefe dessa família, um rapaz correto, que foi envolvido pelos verdadeiros culpados.Sei e acompanhei de perto todo o seu sofrimento.
Acontece, prezado Anonimo, que casos como esse são exceções, não são a regra,em absoluto.
A própria família a que me referi tem,hoje, essa consciencia.
Vamos convir que falhas e erros existem em quaquer lugar, inclusive na Justiça.
Voce tem toda razão ao afirmar que as reparações não são feitas da mesma forma,pois não se pergunta aquelas tres instancias a que me referi- a família,o contribuinte e a sociedade.
E continuo achando que as tres instancias também não tem como se proteger aos assaltos dos cofres.
públicos,penso, com razão igual.

3.Em nenhum momento afirmei que o senhor é uma das pessoas que conhecem ou nutrem algum tipo de simpatia pessoal pelo ex senador Ademir.Se o senhor não disse porque eu diria que o senhor disse? Está tudo publicado aqui no blog!?
Disse, releia o post, que é cabível nesses contingentes, que as pessoas reajam da forma que o senhor agiu. Mas em outros grupos,onde o senhor está situado, e acredito que está, com sinceridade,o mesmo pode ocorrer.
E, de fato, ocorreu.

4. Quanto a rótulos ou condenações precipitadas, peco-lhe que releia o post que publiquei condenando as palavras do deputado tucano Faissal Salmen,pela violência de suas acusações.Este blog não tem ido nesta direção, digamos, verbal.
Relembro ainda que tive a consideração, e não favor, em publicar, sózinha na ribalta,os comentários da jornalista Ana Célia Pinheiro,membro do diretório do PSB, jornalista e blogueira, a única pessoa que abertamente acorreu em defesa do ex senador e foi tratada com respeito aqui no blog.E não há razão para ser diferente.Veja também como ela me tratou.Veja,ainda, como alertei os comentaristas para que evitassem agressões de ordem pessoal naquele post,que despertou animos mais acirrados e estavam resvalando para a troca de acusações.
Da mesma forma o senhor,por isso me desculpo se lhe fiz pensar que distorci suas opiniões.
Tenha em mente que isto aqui é um blog, tocado por uma só pessoa, que não só pode como vai errar também, aqui e ali.
E vai publicar a reconsideração das informações como feito há pouco, em relação a atuação do advogado Egydio Salles Filho, que solicitou um desmentido, e obteve.
E, de novo, muito obrigado por sua atenção.

Juvencio de Arruda disse...

Roberta, quase esqueço de voce...rs.
Obrigado por suas palavras.

Anônimo disse...

O Advogado Egydio Salles Filho entendeu muito bem que isto é um blogue e interviu com veemência (imaginem tal eufemismo no discurso de um advogado), mas sem esquecer a educação que traz consigo, quando corretamente considerou equivocado o post "Calma pessoal, calma", que atenta contra a interpretação dos fatos, a sua conduta advocatícia, os interesses de seu cliente e, last but not least, contra o direito à informação e a correta formação de idéias dos frequentadores deste espaço virtual.
Decerto devemos também atribuir a excelência didática do Dr. Egydio, algum progresso aqui alcançado mais adiante. Noutro post,lê-se que os 18 da CDP são corretamente identificados como "presos", "acusados", abandonando-se, portanto, a habitual farra de lhes aporem ad libitum o rótulo de criminosos, quadrilheiros, etc, deixando a nós leitores a sensação de estármos de passagem numa feira, ou escutando a conversa em alguma lavagem de roupa à beira de algum igarapé.
Portanto, excelente didática a do Dr. Egydio - com D maiúsculo mesmo -, absorvida com proveito por aqueles que tanto prezam e elogiam a elegância, mas às vezes esquecem de traze-la nos toques aos seus afobados teclados.

Juvencio de Arruda disse...

O advogado Egydio Slles Filho não sabe o que é um blog.Foi iso que me dise em telefonema na sexta à tarde, quando pediu a retificação da nota do dia anterior.A retificação foi concedida, naturalmente,e isso encerra o episódio,do ponto de vista jornalístico.
Mas, a depender de sua colaboração,Anonimo, o caso ainda pode render.Para tal bastaria que voce justiicasse, comprovando, é claro,as cinco acusações que faz em seu comentário, a saber:

! "que atenta contra a interpretação dos fatos,

2 "a sua conduta advocatícia,

3 "os interesses de seu cliente e, last but not least,

4."contra o direito à informação e

5."a correta formação de idéias dos frequentadores deste espaço virtual".

Tenho certeza que, além do poster,todos os leitores ganharemos com seus detalhamentos acerca de cada acusação.

Há um equívoco ao atribuir à excelente didática do Dr. Egydio a redação do post subsequente.Nâo é matéria de sua competência.
Ainda assim agradeço o reconhecimento.
Por favor, releia os dois posts em que tratei o assunto.Eles não merecem ser chamados de deselegantes.
Por fim, louvo sua decisão em escolher este post para postar seu comentário.
Gosto muito dele.
Aguardamos seus esclarecimentos.
E agradeço seu comentário, elegante,com notável concisão,muito bem roteirizado.
Meus cumprimentos.

Anônimo disse...

Tenho uma dúvida que me pergunto e me perguntam tambem.
Por que se algema-se presos com as mãos para traz e outros com as mãos para a frente?
Obrigado!