27.1.07

Acadêmicos e Gestores

O post Universidade e Estado, do reitor da UFPA, levantou uma interessante polêmica.

Um anonimo escreveu:

Certamente o Reitor usa de uma liberdade corporativa apropriada aos trópicos. Em países desenvolvidos representantes da academia são consultores seniores do governo, tal qual alguns dos citados por ele.
Não estão na linha de frente, fazendo aprendizado de gestão que é outra coisa completamente diferente em países com forte tradição acadêmica, marcada por pesquisa, desenvolvimento e inovação.
E esta é a diferença para os anglo-saxões: Academia pesquisa, academia critica, polemiza e aponta caminhos. Quem faz politics e police são outros, conforme Weber previu.
Mas, o que digo, se afinal estamos frente ao imperativo da criatividade, muito própria de quem diz que inexiste pecados abaixo do equador?
Sejamos criativos, portanto. Como manda a alcova.

E Tropicália retruca.

Permita-me discordar do anônimo das 12h20 quanto à afirmação de que "Politics e police são outros...", e aí citando Weber....
Considero que o dilema está colocado, e muito bem, por Weber, mas quanto a afirmar que são outros...Trata-se de um dos dilemas da "sociedade da especialização do conhecimento": a convicção política x possibilidade objetiva do conhecimento: duas forças motrizes da modernidade, para o bem e para o mal.
Daí o seu indissociável percurso: o poder e o conhecimento, com suas variações de magnitude, transformam interesses de elites em problemas de maioria, e questões de maioria em políticas públicas.
A objetividade do conhecimento na busca de soluções aos problemas das maiorias passa pelas "convicções políticas" dos grupos que se alternam no poder. O dilema é real, falso é a negação da importância do lugar do "conhecimento acadêmico" sobre a "Politics" e como instância de execução das políticas.
Falsa é a afirmação de que o coorporativismo "acadêmico" do Prof. Alex Fiúza de Mello não o deixa ver o papel que as elites intelectuais desempenham nas sociedades, norte-americana e européias, colocando-as na confortável posição de "consultoras" de "Politics".
Será que a "criatividade de alcova" é uma invenção dos trópicos?
Recrutamento de elites intelectuais para funções executivas, sem alcova?
Onde?

5 comentários:

oliver disse...

Estupendo o primeiro comentário. Não tanto pelo o pensamento em si, mas pela capacidade de síntese e pela tangência às relações entre os poderes do conhecimento e da política.
Poucas vezes vi coisa mais provocativa em tão pequeno espaço - e tão grande! O post de um blogue.

Juvencio de Arruda disse...

Eu não vivo dizendo que quem fez um blog são seus leitores?
Essa é a diferença - protoplasmática, se me permite o dr. - entre ele e outras formas de comunicação.E de imediato, real time.
Olhe, compadre, blogs assustam.
Às vezes até seus posters...eheh.

A discusão é milimétrica.
Aposto que ambos são acadêmicos,e desconfio,ambos,com conhecimentos de gestão.
Entre os dois? Prefiro debater o tema.
Na alcova,francamente,uma paixão é sempre bem vinda...rs
Abs.

Alex Fiúza de Mello disse...

Ao blog Quinta Emenda manifesto meu contentamento por ter provocado uma reflexão pública sobre o tema ACADEMIA x ESTADO (ou ACADEMIA e PODER, se se preferir).
Decerto, meu objetivo maior não foi estabelecer comparações entre o papel da academia nos trópicos e o da academia no hemisfério norte - mesmo porque a academia, em qualquer lugar, reflete a cultura (os valores) da sociedade em que se insere. O meu alvo crítico é o estranhamento da presença de acadêmicos no Governo, como se o poder político fosse patrimônio tão-somente de políticos de carreira, militantes partidários, sindicalistas ou militares. A propósito, o que Max Weber destaca em seus dois artigos do início do século passado, "A Política como Vocação" e "A Ciência como Vocação", é a lógica distinta que deve mover a ética do exercício dessas duas funções na sociedade moderna, de progressiva especialização e racionalização das esferas da ação: enquanto a primeira - a política - deve primar pela responsabilidade da ação (o cálculo do impacto de uma decisão vis-à-vis o objetivo almejado), a segunda - a ciência -, sem essa preocupação, deve mirar simplesmente a convicção da tese, mesmo que não agrade os interlocutores e cause reação contrária em cadeia. Em nenhum momento ele quis dizer que alguns devem ser apenas cientistas e outros unicamente políticos, mas sim que, quando no poder, cientista ou político devem zelar prioritariamente pela ética da responsabilidade, abdicando, quando for o caso, em função dos objetivos em jogo, inclusive da própria convicção. Agora, se nos países desenvolvidos acadêmicos se dedicam mais (mas nunca exclusivamente) à função intelectual de produzir conhecimento, é porque ali as elites - conscientes de que conhecimento é poder - remuneram bem seus cientistas para que estes não saiam da academia e produzam ininterruptamente inovação, consultando-os sempre que necessário ou convocando-os para missões especiais dentro do próprio Governo. Como no Brasil as elites, via de regra, não cultivam compromisso republicano com a sociedade ou defendem um projeto de Nação, e visam apenas vantagens corporativas, de curto prazo, logo o conhecimento não assume o valor social que lhe seria merecido - acham, inclusive, certas elites, que já se gasta muito com universidades públicas (sic!), desconhecendo que, proporcionalmente ao PIB, gastamos menos em ensino superior que o Chile, o México e a Coréia, para não nos compararmos com os demais países, evitando aumentar ainda mais o nosso complexo e o nosso atestado de ignorânica.
No Brasil, de mentalidade sindical-corporativa (operária ou patronal), acadêmicos no poder soa algo estranho. Ignora-se que esses - extamente pela mediocridade das mentalidades dominantes - podem dar uma contribuição significativa, desde que aprendam a ser políticos e administradores. Mas, como quis significar no artigo publicado, , não são "salvadores-da-pátria", nem melhores que os demais cidadãos, a priori. Não os defendo corporativamente, nem faço qualquer apologia aos mesmos - mesmo porque, como em toda parte do mundo, há também péssimos acadêmicos ou aqueles que, embora bons, não têm vocação para o mando ou para a gerência da máquina administrativa. Não podemos fazer mito de nada, nem dos acadêmicos, nem dos políticos e demais profissionais. A questão não é ser ou não ser da academia, mas de conhecimento (sim, também conhecimento, no sentido cognitivo!), de vontade política, de ética e de responsabilidade para com a causa pública. Apenas que não se pode ter preconceitos contra pessoas que são recrutadas na academia: nem a favor, nem muito menos contra - porque não há fundamento empírico, nem histórico, para tal.

Alex Fiúza de Mello

francisco rocha junior disse...

Professor Alex, concordo plenamente com sua posição. Mas que o FHC bem que tentou desmenti-la, ah, isso ele tentou...

Anônimo disse...

Estava para escrever um comentário quando chegou o excelente post do Alex Fiuza de Melo. Queria acrescentar somente o seguinte:
A diferenca fundamental, nos países desenvolvidos, entre o papel dos "academicos das Universidades" e dos "policy makers" esta, na minha opiniao, na "qualidade, quantidade e estabilidade" da burocracia estatal e a extensao (nao tenho uma palavra melhor) do conhecimento formal na sociedade. Esta alegada (desejada?) especializacao do trabalho intelectual, entre academia e "gestao" esfacela-se em contextos como o nosso com uma burocracia estatal "minimalista" e conhecimento cientifico/formal restrito a um pequeno número de pessoas. "Especialistas", em sociedades como a nossa, na maioria das vezes, tem que "cobrar o escanteio e correr pra cabecear". Por exemplo, nos meus anos na UFPA a maioria dos meus Professores tinha um segundo trabalho e a razao nao era apenas financeira. A sociedade demandava o conhecimento deles "extra-muros". Esta "dualidade" nao permitia a eles -nao a falta de inteligencia e conhecimento - uma producao academica mais especializada e extensa. Aqui, nos "países desenvolvidos" onde estudei e moro, Professores sabem muito sobre temas muito especificos, publicam extensamente e nao sao chamados para a "gestao"- em cargos menores - porque existem funcionários de carreira e treinados para o posto (Isto nao quer dizer que Professores nao exercem cargos de "gestores": Condi Rice, Kissinger, Larry Summers, o atual Presidente do Bundesbank e muitos outros sao exemplos que nao permitem um generalizacao desta "tese").

Enfim, a divisao do trabalho intelectual guardaria uma relacao bem próxima com o número, por exemplo, de PhD, mestres, que uma determinada sociedade possui. Quanto maior este número, maior tenderia a ser esta divisao dentro da própria academia (as agendas de pesquisa seriam mais especializadas) e fora das Universidades (os policy markers seriam pessoas diferentes dos "Academics").
Portanto, se a participacao de Professores da UFPA no Governo nao atrapalhar este projeto, de mais longo alcance, de disseminacao e ampliacao do conhecimento em nossa sociedade, nao vejo razao pra tanta polemica e estranheza.
ps: Aos Weberianos de plantao: fiz - no fim de semana passado - uma agradável visita a casa onde viveu Max Weber em Heideberg. Está à venda um CD room com as obras completas do Mestre e com um sistema de busca fantástico que economiza muito tempo folheando a memoria e livros pra achar o ponto de interesse.
abs
ricardo