11.6.09

Alepa, TCE e Base Aliada

Por Humberto Lopes (*)

Cláudio Puty tem a chance de surpreender de forma positiva pela segunda vez, depois de tanto resultado negativo. O uso dos termos positivo ou negativo não significa agrado ou desagrado do autor com o resultado das ações, e sim o saldo final comparado à intenção inicial.
O Chefe da Casa Civil chegou nesse final de semana à Conferencia de sua tendencia com 15% dos delegados, com um monte de gente querendo colocar tachinha em sua cadeira e estando supostamente isolado. Saiu de lá com metade dos membros do GT e com cerca de 1/3 dos Coordenadores Regionais. Houve muitos risos, tapinhas nas costas e destravamento de dificuldades. Mas nada disse teria sido possível se seus adversários internos não tivessem um olho nas estruturas de poder do Governo. E assim la DS va: Puty finge que perdeu, os outros pensam que ganharam e todos ficam felizes.
Mas onde o Chefe da Casa Civil vai ter que demonstrar que seu inferno astral - no qual se arrasta há mais de um ano - de fato acabou é na Assembleia. Na eleição de Conselheiro ao Tribunal de Contas do Estado, onde se apresentam quatro candidatos.
Em setembro passado, engendrando uma sucessão de erros táticos, permitiu que César Colares (PSDB) fosse eleito Conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios.
O primeiro erro tático foi se imiscuir abertamente na disputa de uma vaga que era prerrogativa da Assembléia preencher. O segundo erro foi tratar César Colares como parlamentar de oposição. Apesar de ser do PSDB, César sempre foi parceiro do Governo. A eleição de Colares ao TCM deixou como saldo uma profunda brecha entre o Governo e o G-8. De quebra, trouxe à Assembléia um legitimo oposicionista: o Deputado Bira Rodrigues (PSDB).
Mas isso é passado. Para a disputa em curso se apresentam como candidatos: Luiz Cunha, PDT/PT; Carmona, PMDB; André Dias, PSDB e Junior Hage, PR. Do ponto de vista estritamente do interesse do Governo, não será nenhum drama se, ao invés de Luiz Cunha, Carmona ganhar a vaga. Afinal, qualquer um deles seria substituído por um governista: Pio X, presidente da ASIPAG. A suplente de Júnior Hage é Suzana Lobão, que continua pontificando na política de Augusto Correa e tem proximidade ao Vice-Prefeito de Belém, Anivaldo Vale. Já a suplente de André Dias, Elza Miranda, até recentemente estava – digamos assim – em retiro espiritual nos garimpos de Marabá. Internamente ao PSDB é jatenista.
Eu aposto hoje numa polarização Luiz Cunha X André Dias. Luiz além do apoio do Governo tem seu trunfo maior na simpatia entre os pares. Deputado assíduo, não consegue guardar magoa de ninguém e nem conheço ninguém que lhe faça restrições pessoais.
Não vejo o PMDB quebrando lanças por Carmona. Ele é considerado um estranho no ninho do Partido. Embaraçou a estratégia partidária – de aprofundar o isolamento do Governo Ana Júlia - ao indicar o sobrinho para a direção do DETRAN após a saída de Livio Assis. Por fim, quase atrapalha a eleição de Domingos Juvenil para a Mesa da ALEPA, hora cabalando votos para si nos bastidores, hora brandindo uma ata de uma reunião qualquer onde o PMDB firma compromisso com ele. Para o PMDB seria um alivio livrar-se do deputado, mas não cabe em sua estratégia - dificultar a vida do Governo - perder um voto – apesar de tudo – manobrável para entregar a um fiel Pio X.
Junior Hage carrega o peso do nome. A família Hage é vista como uma dinastia ávida de poder na região da Calha Norte/Baixo Amazonas. Esse pedaço do Estado, com 12 municípios, elegeu, além de Junior, seis deputados em quatro legendas. Eles temem que a familia coloque Gandor Hage Neto – tido como mais agressivo em termos de estratégia eleitoral e na convivência pessoal – na disputa por uma vaga na ALEPA em 2010. Os lideres do G-8 sabem das restrições a Junior Hage e o grupo tem deputados com melhor trânsito, como João Salame e Ana Cunha. Até onde vai à candidatura de Júnior? Ao plenário para negociar o segundo turno?
Especulando o futuro, pensando que todos os atores vão tentar maximizar seus resultados, podemos prever o seguinte:
a) PMDB vai tentar mais uma vez derrotar o governo. Vai então reforçar Andre Dias;
b) O governo não quer perder de novo. Vai dar espaço ao PTB, efetivando pelo menos dois terços dos acordos que vêm sendo costurados desde março;
c) Considerando o clima de plenário, o perfil de cada deputado, as relações pessoais e os interesses em jogo, arrisco que se a eleição fosse hoje, teria o seguinte resultado:

Primeiro turno:

André Dias: 18
Luiz Cunha: 14
Junior Hage: 08
Carmona: 01

Segundo turno:

Andre Dias: 21
Luiz Cunha: 20

Aliás, há espaços para “surpresas” nesse resultado. Por exemplo contabilizei o Carmona como voto em segundo turno no André. Mas será que, a exemplo de setembro, ele não votaria em Luiz para aumentar a bancada evangélica na ALEPA?
O deputado Luiz Cunha não merece mais essa derrota.
No entanto a Assembleia não é o pátio da Computer Store, nem seu plenário a Conferencia da Democracia Socialista. Apesar das negociações serem simples, elas precisam ser efetivadas. Nesse momento, a disputa é realmente entre situação e oposição.
O inimigo é real, não a miragem de nove meses atrás.

(*) Humberto Lopes é mestrando do Programa de Ciência Política da UFPA.

17 comentários:

Anônimo disse...

Se André fica com 18 votos. Já foi eleito para o TCE. Por que segundo turno???

Humberto Lopes disse...

Porque é preciso maioria absoluta dos deputados. Como a Assembléia tem 41 deputados, isso significa 21votos.

Anônimo disse...

Humberto Lopes não seria da DS?

Alda Costa disse...

Humberto,


O nome correto do deputado do PSDB, é Bira Barbosa. Bira Rodrigues é professor.


Alda Costa

Anônimo disse...

Juca, quando será a eleição do membro do TCE?

Franssinete Florenzano disse...

Há muito mais do que isso em jogo e as articulações são muito maiores do que está dito. Quem conhece profundamente as entranhas da Assembleia Legislativa compreende essas questões. Por questões éticas, não posso comentar este assunto.
Mas posso fazer um adendo: não existe segundo turno na eleição para o TCE. É turno único.

Anônimo disse...

O que aconteceu na Conferência da DS foi que os membros da Coordenação foram indicados pelos secretários, bem como os do GT. Não houve votação. Assim, é claro que o Sr. Puty pode ter a maioria. Só que Esqueces uma coisa, Sr. Humberto: quem elege o parlamentar não é o GT(tem membros da coordenação e do GT da DS que nem base tem);os que tem base, já estão comprometidos). Assim, Puty pensa que ganhou, os outros fingem que perderam e no final apenas alguns irão ficar felizes.

Humberto Lopes disse...

Anonimo das 12:32: ainda me considero da DS. Não sei se a tendência ainme contabiliza entre seus quadros. Desde fevereiro deste ano não recebo nenhum documento formal da corrente. Também não fui comunicado se respondo a qualquer processo disciplinar ou se fui expulso.

Alda, vc está corretissima. Eu sempre confundi o nome dos dois. Vc não imagina o comstrangimento que isso me causou algumas vezes.

Juca me permita responder ao anonimo das 12:49. Se o rito for seguido no prazo máximo, a votação em plenário será em agosto. Mas o deputado Juvenil - presidente da ALEPA - quer votar até a última sessão ordinária desse semestre, dia 25/06.

Por fim, Franssinete, de fato há muita coisa dita em meu texto e em outros que circulam na imprensa e na internet. Quanto à questão de dois turnos na eleição dos conselheiros, antes de escrever o texto, liguei para algumas pessoas e cotejei alguns resultados anteriores. Mas se vc tem está certa sobre esse aspcto da escolha, então mais um motivo para os operadores do governo destravarem as dificuldades que hoje impedem que o deputado Luis Cunha tenha a certeza da vitória.

Humberto Lopes disse...

Caro anônimo das 17:40 no mi quieras mal. O que eu quis dizer está escrito em meu artigo: Puty, por indicação direta ou em aliança tem metade dos membros do GT. Ponto final.

Eu pensava que os parlamentares fossem eleitos pelo povo – ou pelos eleitores. Eu acreditava que à direção cabia a tarefa de fazer a triagem dos candidatos indicados nas bases municipais /estaduais e viabilizar o discurso político e a estratégia de campanha dessas pessoas. Obrigado pela aula.

Concordo com sua avaliação en passant sobre quem tem base ou não tem. Mas isso não é crucial. Os intelectuais, estretegistas, etc, nem sempre têm apreço em organizar Centro Comunitário, sindicato ou grêmio. Nem todas as lideranças de massa têm tempo ou disposição para leituras densas. Então, não vamos criar crise onde não existe.

Alias, neste breve artigo as únicas candidaturas que tratei são as dos deputados que disputam uma vaga de conselheiro do TCE. Ou estarei ficando senil e não sei o que escrevo?

Agora vamos ao problema de fundo seu comentário: os membros da Coordenação foram indicados pelos secretários, bem como os do GT. Então para que Conferência? Para que gastar sabe-se lá quanto com o aluguel da Computer Store? Para que se gastar uma pequena fortuna com passagens? Para que se fazer com que meu amigo José da Rocha Amazonas largue os ensaios de seu bloco em Juruti, para passar um final de semana em Belém?

Era só perguntar a cada secretário quem eles queriam na direção da tendência. E assim se constrói uma verdadeira Democracia Socialista.

E, por fim, defendo minha analise: Puty finge que perdeu. Você mesmo, anônimo, dá as pistas para legitimar minha avaliação.

Anônimo disse...

Na eleição para o TCM, eu já vi empatar e ocorrer nova eleição para o desempate.
Essas eleições são geralmente tensas, afinal de contas esse é um "emprego" pra lá de sedutor.
Neste caso particularmente, fiquei admirado em saber que o Carmona está apoiado pelo PMDB, seu partido atual. Todo mundo que lê ou já leu a Veja, sabe que as matérias sobre Jader, foram levantadas por um jornalista genro do Josué Bengtson, o todo poderoso da igreja do Carmona e que já foi deputado federal e renunciou. O apoio de Jader a Carmona, é aldacioso. No caso do André Dias, tem um dado interessante, ele foi levado à igreja Quadrangular pelo Carmona e por conta disso, dividiu muito os votos que este obteve em 2002. A amizade ficou meio abalada, digamos assim!

Anônimo disse...

Caro Humberto, você foi diplomático em sua resposta. Concordo com você em sua análise da conferência, se era para ser como foi, não deveria ter acontecido. No mais,continuo com
apreço por vossa pessoa. Um abraço.

Anônimo disse...

o fato do claudio puty ser um dos secretários mais preparados do governo ana julia e pela sua postura gozar da extrema confianca da governadora deve causar uma ciumeira danada.marcelo gil

Anônimo disse...

O Marcelo Gil, afora o "gozar da extrema confiança da governadora", que voce tem toda razão, agora certamente não deve ser pela competencia e postura, sabe Deus!

Charles Alcantara disse...

Querido amigo Humberto,
Como não estou em Belém e desliguei-me um pouco da internet, somente agora tive acesso ao seu texto e aos comentários por ele suscitados.
Você sempre foi audacioso em suas análises. E não foi diferente agora.
Malgrado a audácia, a sua análise é consistente e provocante.
Revela um militante experimentado, a despeito de ser ainda jovem, disciplinado, estudioso e observador atento da cena política.
Mais importante do que a confirmação do vaticínio nela contido, é o valor do conjunto da obra, repleta de sutilezas e de uma indisfarçável elegância.
É bom lê-lo!
Charles Alcantara

Humberto Lopes disse...

Juca, em primeiro lugar, eu espero que essa sua ausência tenha sido para comemorar um “dia dos namorados prolongado”, merecido por sinal.

Anônimo das 08:52. Concordo com você e com os fatos históricos elencados, inclusive as “questões de fé”. O fato de um partido subscrever uma candidatura não significa apoio. Você também deve lembrar que houve ocasiões em que o deputado candidato foi derrotado sem ter sequer os votos de seus colegas de bancada.

Caro anônimo das 9:05, um abraço para você também. Seria mais aprazível se eu soubesse de quem se trata. Me passe um e-mail: jlb500@bol.com.br.

Caro Marcelo Gil, a quem não tive a subida honra de conhecer pessoalmente. No artigo não coloquei em cheque o preparo de Puty, nem a confiança da Governadora em sua pessoa. Existem atos e opiniões dele com as quais eu concordo, inclusive integralmente. Mas não espere que eu me finja de cego ou hipócrita, e não veja ou não diga que também há erros sendo cometidos. Mas estes (os erros) acabam falando mais alto quando se faz um balanço de gestão.

Anônimo das 08:53. O Claudio Puty foi da coordenação de campanha de Ana Júlia em 1992, organizando a frente de Juventude. È uma confiança construída ao longo da história de ambos.

Camarada Charles. Você continua sendo uma pessoa generosa em sua escrita. Reportando-me um pouco ao que disse ao Marcelo Gil, a vantagem de trabalhar com você foi poder expressar minhas analises, minha concordância ou discordância quanto às ações a serem seguidas sem medo de ser retaliado. O mais interessante é que, exceto uma vez, eu ficava irritado em ter que cumprir uma ordem contra a vontade.

Há fatos novos na disputa: Carmona tomou fôlego e talvez não fique solitário em seu voto. Nos bastidores dos bastidores já se fala em retirada de uma candidatura. Por fim, impressão minha, a estratégia do G-8 em oferecer a aposentadoria da Dra. Rosa Hage em troca de votos para Júnior Hage começa a fazer água, por conta da afoiteza do PTB.

Humberto Lopes disse...

Juvêncio, sem querer abusar de sua boa vontade, se possível troque meu penúltimo páragrafo pelo que está abaixo. Sem o "não", ele não expressa o que eu quis dizer. Obrigado.


Camarada Charles. Você continua sendo uma pessoa generosa em sua escrita. Reportando-me um pouco ao que disse ao Marcelo Gil, a vantagem de trabalhar com você foi poder expressar minhas analises, minha concordância ou discordância quanto às ações a serem seguidas sem medo de ser retaliado. O mais interessante é que, exceto uma vez, eu não ficava irritado em ter que cumprir uma ordem contra a vontade.

Juvencio de Arruda disse...

Humberto, meu caro, não há condições tecnicas de modificação em comentarios postados, mas sua observação será suficiente para retificar o entendimento do mesmo.