19.10.08

Depois de Berlim, Nova York

Por Mino Carta.

Gostaria que os tempos fossem bem menos propícios para os especuladores do que para os economistas. Convém escolher com cuidado os vilões. Creio que a lista tenha de começar pelos grandes sacerdotes da religião do deus mercado. Está na moda dizer que os economistas falharam sinistramente nas suas análises. Nem todos.
Indispensável é reservar um capítulo especial para os jornalistas que no Brasil deitam falação sobre economia no vídeo e nas páginas impressas. Nos últimos anos atingiram um grau de prosopopéia nunca dantes navegado. CartaCapital orgulha-se de veicular nesta edição uma sugestão de Nirlando Beirão na sua seção Estilo: que as senhoras e os senhores acima tirem longas férias. E por que não, digo eu, aposentá-los?
Há os vigários e há quem caiu em seu conto. A crise pune os crédulos com ferocidade. Sabemos de antemão que muitos entre os vendedores de fumaça sairão incólumes da monumental enrascada. Como indivíduos, ao menos. E assim caminha a humanidade. Resta o fato, contudo: mais um muro ruiu. O outro muro. Wall em língua inglesa, idioma do império.
Quando o Muro de Berlim caiu debaixo das picaretas libertadoras, há 19 anos, proclamou-se o fracasso do chamado socialismo real. Agora cai o wall nova-iorquino e se busca, em desespero, a reestruturação de um Estado forte depois da ola global das privatizações. Quem fracassa no caso? No mínimo, o capitalismo neoliberal.
Na queda de Berlim, soçobra a URSS. E na queda de Nova York? O império de Tio Sam, descalço, exibe os pés de argila. Dezenove anos atrás não faltou quem, enquanto esfregava as mãos de puro contentamento, decretasse o fim das ideologias, como se não houvesse mais espaço para as idéias. E agora, que dizer? Que o neoliberalismo foi jogada do acaso, despida do apoio de qualquer idéia? Se for assim, concluiremos que resultou de uma soberba insensatez. O que, de alguma forma, faz algum sentido. O monstro criado virou-se contra os criadores. Talvez não passassem de aprendizes de mágico: conhecem o abracadabra desencadeador, mas não sabem pôr fim à magia desastrada.
Falemos do pretenso fim da ideologia. Quem sustenta mostra seus limites. Gostaria de dizer, porém, que antes ainda da idéia vem a ética. É por aí que se abre a chance de sair da selva e escapar às suas leis. É possível o ser ético em um mundo que acentua as desigualdades? Ou aceitar a miséria, a doença, a fome, a degradação humana como coisas da vida?
Cada qual faça suas escolhas ideológicas. Para ficar no campo da economia política, que seja marxista, keynesiano, schumpeteriano etc. etc., desde que o propósito não se limite à garantia da liberdade e busque a igualdade sem o temor do anátema dos donos do poder, que o pretenderá subversivo, terrorista, comunista e por aí afora.
A liberdade sem igualdade tem valor escasso e limites escancarados. Quando, no caso do endeusamento do mercado, não se torna, automaticamente, fator decisivo da desigualdade. Em detrimento do gênero humano em peso. A lição nunca foi tão atual.

6 comentários:

Alan Lemos disse...

O Estado deve intervir na economia só em momentos de crise ou amigo é para todas as horas?

Cada vez mais essa economia "neo-tradicional" dá claros indicativos de que o keynesianismo deve ser restaurado. Mas o que mais me dá raiva é que o puro ideologismo de Smith, Hayek, Mises, entre outros, é que o Estado NUNCA deve entrar para a economia.

E agora?

Quem salvaria as empresas de Wall Street se não fosse o pacífico e benevolente Estado? Eles são assim: querem que o Estado tenha menos atribuições para cobrar pouco imposto e nem existir na economia... mas quando chegam à falência, que se tire grana dos outros setores e os salvem.

(re)pergunto: o Estado deve intervir na economia só em momentos de crise (oportunismo) ou amigo é para todas as horas?

Bia disse...

Boa noite, Juca querido:

é o Estado mínimo para me socorrer quando convir. PROER cá, PROER lá. Mas, a pergunta é: depois de Berlim e Nova Yorque...quem de nós?

Beijão.

Anônimo disse...

égua juvencio, kd o poste que ue te pedi??????
kd? kd? vamos homen!

Anônimo disse...

Então eu pergunto: que diria Darwin desta selva onde não sobreviverão os melhores nem os piores? A teorética neoliberal seria, ela mesma, um anátema? Isto no plano das indagações afinadas com a imprensa mundial, porque, em verdade, Wall Street não ruiu. Todos os analistas econômicos que realmente compreendem a morada dos gorilas sabem disso. É apenas um rapaz esperto que finge ter esquecido a carteira em casa para que seus amigos, que julgavam estar a comer e beber às suas custas, dividam entre si o alto valor da conta. Então fica assim: os que só têm o dinheiro do pão, ficarão sem o pão. Os que têm o dinheiro do pão e mais um pouco, ficarão apenas com mais um pouco. Os que nada têm na algibeira, pagarão com o sangue. Não perderão nada os inventores da criatura. Perderão os que se afeiçoaram a ela aqui para baixo da linha do equador, - estes sim, aprendizes de feiticeiro - onde não há pecado, desde imemoráveis tempos. Quem ler Os Macacos de Wall Street compreenderá bem a grande artimanha dos inveterados.

Anônimo disse...

Senhor Juvêncio, poderia colocar o link do Blog do Mino. É interessante. http://www.blogdomino.com.br/

Anônimo disse...

Juca,

Não sei não, acho que o Mino Carta embarcou no pronunciamento do Lula, e pelo que vejo muitos dos meus colegas do lado daqui do blog. Ou então, influenciados pelos fatos recentes, bem mais convincentes que nosso Presidente.

Entretanto, todos sabemos da célebre frase: "o jogo só acaba qdo termina".

Roberto Pompeu de Toledo, articulista de VEJA, consegue ser bem mais claro e convicente que eu em relação ao tema do poster e tb sobre o que quero dizer. Recomendo a leitura de seu recente artigo: http://veja.abril.com.br/081008/pompeu.shtml

Abs,

J. BEÁ