31.5.07

O Engenheiro Roberto

Roberto é um jovem de pouco mais de 20 anos.
Santareno, vive a mais de mil kms de casa, em Marabá, onde é aluno da primeira turma de Engenharia de Minas, no campus da UFPA inaugurado por Lula em fevereiro de 2006.
Infra de primeiro mundo, o curso do Roberto, construído com ajuda da CVRD. Professores doutores, laboratórios moderníssimos, ambiente acadêmico.
Mas Roberto sobrevive em condições duríssimas, dando aulas no primeiro grau da rede pública municipal, a R$ 4,20 a hora/aula. "Já dei aula até de geografia", disse-me encabulado, como se tivesse cometido uma infração.
Mora num kit net com mais cinco colegas - de diferentes cidades dos quatro cantos do Pará - que comemoram quando a mãe de um deles passa uma temporada por lá, sinônimo de roupa passada e comida decente.
Nas primeiras férias, saudoso de casa, encarou a Transamazônica na última viagem da temporada: o inverno havia começado e a estrada seria interrompida.
Não deu outra: foram cinco dias de viagem.
O busão quebrou duas vêzes, e Roberto, sem grana para mais de dois dias, pediu comida nas casas simples da beira da estrada.
Semestre seguinte a saudade apertou de nôvo e Roberto, escaldado, resolveu encarar uma carona nos caminhões da PA-150 até Nova Déli.
Três etapas, com escalas em Goianésia e Tailândia, para troca de caminhão.
Desembarcou na capital com R$ 10,00 no bolso e foi direto prá Estrada Nova, atrás de um barco para Santarém.
Encontrou o Nélio Correa, dos maiores, e pediu carona.
Ganhou, em troca de um dia e meio de trabalho, em cima de uma bóia, lavando o casco do navio. E tres dias de esfregão no convés de passageiros até chegar em casa.
Agora em julho Roberto quer repetir a dose, prá poder cheirar o suvaco das lindas santarenas e beijar a mãe, no bairro da Prainha, reduto dos arigós, como êle.
Ficou de passar cá em casa, antes de pegar o navio.
Vai encher a pança de comida e levar um farnel prá subir o Amazonas.
Vai levar, também, a admiração deste poster.
Roberto daqui mais tres ou quatro anos vai ganhar uma grana, muito bem empregado. Enquanto isso come o pão que o diabo amassou porque a família é dura e nenhuma entidade - tipo essas que tem grana para remunerar consultorias caríssimas - tem grana para ajudar os estudos do rapaz.
Há interesses maiores.
Inda bem que o Roberto é maior que eles.
Pisa aí, garôto!

34 comentários:

francisco rocha junior disse...

Falamos quase sempre mal dos Estados Unidos, e com muita razão. Mas uma coisa não podemos negar: esta história típica e real de 'self-made man', fosse lá, seria amaciada por uma bolsa de estudos ou um auxílio qualquer ao jovem Roberto, que lhe tornasse a vida de estudante um pouco mais decente.
Deus te abençoe, Roberto. E se precisar de algum auxílio, por pequena que seja minha capacidade e por menor que seja sua necessidade, estou à disposição.

Anônimo disse...

ak diz.
Pisa aí, garoto, principalmente pra cheirar o suvaco das meninas. Se puder ajudar no farnel, contate. É sério.
Afondo Klautau

Juvencio de Arruda disse...

Francisco e Ak, viajo amanhã para Santarém. A colonia arigó por lá é enorme e rica.Dizem até que eles tem uma espécie de fundo para ajudar os conterrãneos em dificuldades financeiras, muita grana, milhões.
Este sprit de corps pode ser estendido aos Robertos da comunidade. Vou prourar um ou dois deles que conheço e sugerir uma bolsa prá este cabra que merece.

Ak, vc tem toda razão.Nada melhor do que um suvaco prá heirar...eheh.
Se a bolsa der certo ele poderá cheirar tamb´pem o suvaco das marabaenses, vitaminadas.
Com todo o respeito, é claro.

Juvencio de Arruda disse...

...e já ia esquecendo do principal: obrigado pelo bom coração que demostram os comentaristas, faculdade que identifico no primeiro, e de há muito reconheço no segundo.

Anônimo disse...

Juvencio,
Anes de manai nada, não gostaria que classificassem este comentário como auto-ajuda. Lendo a crônica do Roberto e os comentários, registro que a fraternidade é capaz de tudo. Virtude inerente à plena humanidade. Entretanto, só quem vive plenamente a humanidade, na qual Deus é imprescindível, é capaz de fazê-la despido de qualquer outra vontade.
Espero que se viabilizem as manifestações de fragernidade aqui rfegistradas, sob inspiração da história do univesitário santareno.
Juvêncio, Deus haveria de te dar a oportunidade de criar uma condição para ajudá-lo. E aos comentariastas do blog também.
Se pudermos ajudar o Roberto e tantos outros por aí, na mesma situação, viveremos a plena humanidade.

Anônimo disse...

Juvencio,
Anes de manai nada, não gostaria que classificassem este comentário como auto-ajuda. Lendo a crônica do Roberto e os comentários, registro que a fraternidade é capaz de tudo. Virtude inerente à plena humanidade. Entretanto, só quem vive plenamente a humanidade, na qual Deus é imprescindível, é capaz de fazê-la despido de qualquer outra vontade.
Espero que se viabilizem as manifestações de fragernidade aqui rfegistradas, sob inspiração da história do univesitário santareno.
Juvêncio, Deus haveria de te dar a oportunidade de criar uma condição para ajudá-lo. E aos comentariastas do blog também.
Se pudermos ajudar o Roberto e tantos outros por aí, na mesma situação, viveremos a plena humanidade.

Walter Jr disse...

Convença este rapaz a entrar na política, Juca. Com 500 iguais a ele a gente muda este país...

Yúdice Randol disse...

Esse Roberto é daqueles brasileiros que dignificam a brasilidade, que nos dão esperanças para este país. Espero que ele conclua com sucesso o seu curso e possa usufruir dos benefícios que a carreira lhe trará, ajudando ainda a desenvolver o nosso Estado.
Juvêncio, não dá para me apresentar esse rapaz? Será que ele aceitaria fazer uma palestra para alunos de uma faculdade privada, sobre como nem sempre as coisas são como queremos, resultando daí que precisamos nos esforçar - e muito?

Bia disse...

O que salva este arremêdo de nação que somos, são os Robertos, os Jucas, os Franciscos e os Afonsos.

Beijão pra vocês.

CJK disse...

Mestre Juca, quem tem mérito, deve ser ajudado. É isto a que o Dr. Francisco e o AK se referem.

O seu humilde admirador também fica à disposição, embora não tenha disponível nenhuma verba de gabinete. rsrsrsrs

crisblog disse...

E o seu também Juca.... tudo começou com ele...

Beijos.
Boa viagem.
Obrigada pela visita no blog.

Marky Brito disse...

Ao Roberto,

Sou neto de índios guajajaras maranhenses, e de arigós e nascido no antigo Hospital dos Servidores em Belém. Passei muito do que você passa agora. Também pegava carona para estudar em outra cidade, ralei mas consegui passar no curso que me fascinava: engenharia florestal.

Felizmente consegui uma bolsa e um estágio em uma ong local, mas não sem antes comer o pão que o político amassou. Era paraense, e pode acreditar, sofri preconceito de acadêmicos e pesquisadores de minha área, que não eram paraenses. Ouvi até que o Brasil deveria ser só de Goiás para baixo, mas não desanimei.

Hoje trabalho na minha área, na terra que amo, Amazônia. Semana passada, um amigo que faz doutorado em Blacksburg, Virgínia (EUA), me perguntou como posso submeter meu filho a vida na Amazônia. Foi contaminado pelo vírus do American Way e esqueceu como foi vir do Maranhão e ralar em Belém.

Eu não esqueci e por isso fico por aqui mesmo.

Juca, leve minha força aqui do Acre pra esse rapaz.

Abração.

William Bayerl disse...

Legal Juca vc ter trazido para a discussão do blog um assunto considerado 'piegas' por muitos, mas de suma importância, e parabéns ao Roberto, esse jovem de capacidade, força de vontade e caráter, que não esquece suas raízes.
Me alegra perceber que existem inúmeros 'Robertos' no Brasil e é por isso que ainda acredito no meu país, contudo fico imaginando que virá um Lula da vida e fará uma propaganda do tipo: "Eu sou brasileiro e não desisto nunca", para se vangloriar naquilo que não é mérito seu, mas sim de um humilde jovem que mantém os sonhos de dias melhores para si e sua família.

Coisas do Brasil

Anônimo disse...

Roberto é um belo exemplo para todos nós. Muitos outros Robertos temos por aí perdidos, sem oportunidades, sem esperanças. Tomara que outros Jucas os encontrem, para que possamos compatilhar dessa solidariedade. Acho que o blog cumpre, assim, um papel importante perante a sociedade. Sou mais um nessa.
Juca, parabéns pelo relato. De prima.

Orly Bezerra

RONALDO GIUSTI disse...

Caro Juvêncio,

A propósito da notícia que me recomendaste, veiculada no sítio do Tribunal Regional Federal da 1a. Região - Seção Judiciária do Pará, acerca da campanha contra o foro privilegiado para autoridades, tenho cá minha opinião.
Em primeiro lugar, não se trata de privilégio pessoal, mas prerrogativa da função; segundo, você não acha mais fácil ao Jáder Barbalho conseguir uma absolvição em âmbito local do que num tribunal superior?; ou, não é mais fácil a um prefeito articular sua absolvição perante um Juiz singular da cidade que governou, do que no Tribunal de Justiça do Estado?
A sobrecarga de serviço nos tribunais é problema sério a ser resolvido. Seria o caso de se criarem câmaras especiais para julgamento dos crimes de responsabilidade e aumentar o número de magistrados.
O assunto, embora polêmico, tem de ser tratado com equilíbrio e a impunidade não pode continuar dando as cartas à sociedade brasileira.

RONALDO GIUSTI disse...

Caro Juvêncio,

Sobre a situação do Roberto, que mora e estuda aqui em Marabá, penso ser a de milhares em todo o país. Reflete a condição de desigualdade social no Brasil. Não podemos tratá-la (a situação) com indiferença. A determinação do jovem estudante demonstra que ele vencerá, para o seu bem e do Brasil.

Jubal Cabral Filho disse...

Cara, este lance me lembrou qdo. estudava aqui e queria ir prá casa na bela Santarém.
Graças aos muitos, como vc e demais colaboradores deste blog tinha comida decente e um farnel generoso nas viagens.
Toca, Roberto a vida que vais ser muito maior que as dificuldades que encontras.
E se a gente puder ajudar, 'tamos aqui!
Obrigado Juca pela singeleza do post.

Juvencio de Arruda disse...

Aos Roberto que aqui vieram, um grande abraço!
Vou passar o post e os comentários para ele.
Com certeza a sua lide vai ficar mais leve.

Lafayette disse...

...pra beijar mãe se deve fazer de um tudo!

Ps.: Mas podia ser uma pouco mais leva a cruz, né não?

Juvencio de Arruda disse...

Ei Lafayette, e o suvaco das cabocas, nada?...rs

Lafayette disse...

...TUDO! :):):)

...e mais um pouco! ;););)

Anônimo disse...

Juca

este rapaz lembra minha mãe.

filha de mãe solteira em 1944.

trabalhou como doméstica no início da vida em Belém.

Estudante normalista aos 16 anos e grávida de meu irmão aos 18.

Parou de estudar. Tornou-se professora de escola pública para ajudar as despesas da casa.

Passou no vestibular em Direito aos 30 já com 03 filhos.

Marido desregrado.

Batalhou pelos concursos públicos da vida. Virou promotora de Justiça.

Grande Hêdima. Orgulho de vc mãe.

Juvencio de Arruda disse...

Pai d'egua!
Parabéns, e dê um beijo nela.

Lafayette disse...

"...grávida de meu irmão aos 18."

Confesso que demorei para entender... pirei momentaneamente, pensando como seria o parentesco! rsrsrs

História de uma vida de luta... é isso aí!

Anônimo disse...

Afe Maria, quanto brasileiro bonzinho!!!

Juvencio de Arruda disse...

eheh...tem os mauzinhos também, né?

Anônimo disse...

Grande Juca,
O Roberto não esta passando algo muito diferente do que passam alguns milhares de estudantes brasileiros, mas isso não quer dizer que ele deixe de ser mais um herói, como tantos outros. E passe a ele uma boa notícia, um patrocínio das passagens Marabá/Belém, Belém/Marabá. Passe o meu contato pra ele, assim o Roberto chega com menos dificuldade na sua casa pra encher a pança. 1 abraço Dr. Costa

Juvencio de Arruda disse...

Beleza, Dr.Costa, outro homem de bom coração...rs
Éverdade que há cedntenas de milhares na situação do Roberto, em poucos com a sua disposição.
Mandarei seu contato para o Roberto, sem falta.Um grande abraço e estou lhe aguardando na proxima visita à Nova Déli.
Abs na turma toda aí.

Ale Carvalho disse...

caramba, parece até a história do meu pai! ;) Mas a parte do "ganhar uma grana" não foi exatamente assim... É que meu pai fez engenharia florestal! ;) bjs

Juvencio de Arruda disse...

Ah! Fala sério, um doutor ganha uma grana sim...rs
Dá até para mandar a filhinha estudar na Inglaterra...rs
Agora falando sério, o Marky, aí em cima, reclama o mesmo.
Imagine eu que não ou doutor?
Bjs, querida!

Anônimo disse...

Grande Juvêncio.

Neucivaldo Moreira

Juvencio de Arruda disse...

Grande poeta e companheiro.
Abs

francisco rocha junior disse...

Olá Juvêncio,
Em que deu a história da bolsa do futuro engenheiro Roberto? A proposta de ajuda, da minha parte, continua de pé. Acho também - perdoa-me a intromissão - que muitos comentaristas do blog gostariam de saber se o rapaz já está cheirando o suvaco das meninas de Santarém, e se correu tudo bem. Afinal, a história comoveu todo mundo.
Abraços e boa semana pra ti.

Juvencio de Arruda disse...

rsrs..rancisco, estou fazendoum conato cok o Roberto para passar-lhe as novidades. A passagem ele já tem para "cheirar as meninas".
Infelizmente não fui a Santarém como esperava.Mas também já dei o start por lá.As férias só começam na proxima quinzena.Até lá espero ter enaminhado o esquema do Roberto.
Assim que tver novidades informo prá voces, e obriado por seu interessa.
Abs e boa semna prá voce.
(a minha vai ser curta...vou descansar a partir da quarta)