14.5.08

Narrativas Românticas

Da leitora que se assina Tropicália, por e.mail, a propósito das análises sobre a saída da ministra do Meio Ambiente Marina Silva.

A questão ambiental continua a produzir narrativas românticas.
Estamos no séc.XXI e mais e mais narrativas românticas continuam sendo elaboradas na temática ambiental.
Com todo o respeito à senhora Marina Silva, pela trajetória pessoal e pela coerência política, mas está faltando capacidade analítica aos comentaristas da pauta ambiental.
Parece-me oportuno perguntar se essa digna senhora deveria ter ocupado este lugar. Traçar equivalência entre função administrativa e trajetória política é fundamental mas não se pode esquecer que em uma função dessa envergadura o conhecimento técnico-científico é fundamental.
Ao dar equivalência semântica entre a questão ambiental e a trajetória política da ex-ministra Marina Silva retornamos aos termos do romantismo para o qual a individualidade e sua abstrata aspiração são capazes de modificar as estruturas do mundo real.
Retirando o elemento romântico da narrativa político-ambiental fica evidente o papel secundário e melancólico destinado à digna senhora. Conforme Przeworski, o "capitalismo é um sistema em que recursos excassos são privadamente apropriados. Entretanto, neste sistema a propriedade é institucionalmente separada da autoridade."
Portanto, estamos esperando que a Federação, amalgamada na imagem de nossos representantes no executivo e no legislativo federal, demonstre capacidade de se fazer representante dos interesses públicos da nação brasileira.
Ou a Amazônia não faz parte da Federação?

17 comentários:

Anônimo disse...

A Tropicália fez uma análise psicodélica.

Juvencio de Arruda disse...

Por quê, por favor?

Parsifal Pontes disse...

Olá Juvêncio,

Com a devida vênia à comentarista, não me ficou claro se há reserva aos românticos ou apenas uma observação sobre a ausência de comentários analíticos.
Como, mesmo no século XXI, sobraram românticos, e eu, cá com meus botões, acho ótimo, é certo que o tema ambiental desperte paixões.
Se a Senadora Silva deveria ter ocupado o lugar que agora deixa? Sim, e desincumbiu-se bem da tarefa.
A natureza jurídico institucional de um ministério da República é essencialmente política e, para que o múnus seja exercido em cargo de tal substancia, mais atitudes e menos aptidão são necessários: para tomar as atitudes é que se faz necessário o assessoramento técnico-cientifico, que deve ter peso especifico adequado.
Para saber qual a adequação das variáveis técnicas e o peso que elas deverão ter nas atitudes políticas é preciso sensibilidade, conhecimento de causa, história de vida correlata e fé no que se está fazendo: a Senadora Silva preenchia estes requisitos.
Faz-se uma constatação, no qüinqüênio Marina Silva, que vai ao encontro do que, provavelmente, quis o texto insinuar: o romantismo da Senadora Silva no Ministério do Meio Ambiente, e o romantismo dos ambientalistas em geral, têm conseguido modificar as estruturas do mundo real no que tange à questão ambiental.
Há uma agenda ecológica a se formatar no Brasil e esta agenda se deve, em grande parte, ao empenho pessoal da Senadora Silva, que emprestou a sua autoridade aos resultados dos trabalhos científicos que lhe chegaram aos olhos, ratificando a sua intuição.
Quanto ao Professor Przeworski, embora seja uma imperdoável ousadia minha contestá-lo, a segunda parte da asserção dele não cabe ao mundo material das democracias latino-americanas: é verdade que o capitalismo se apropria de recursos escassos, mas, é tão verdade, ao contrário do que afirma o nobre mestre, que, materialmente, a propriedade é inextricavelmente associada à autoridade.
Finalmente, a Amazônia faz parte, sim, da Federação, mas, o pacto desta Federação está firmado exatamente na parte que o Professor Przeworski acerta, e no contrário da parte que eu entendo que ele se equivoca, e, ao cabo, era contra esta estrutura que a Senadora Silva se batia: os que insistem em exercer a sua autoridade para privatizar os lucros e socializar os prejuízos.
Por fim, meu caro, vida longa aos românticos do século XXI e que os cientistas os olhem com carinho.

Abraços,

Parsifal Pontes

Juvencio de Arruda disse...

Olá, caro deputado.
Sua ausência tem sido sentida por aqui. Aprendiz nessas artes da política e da semântica romântica, deixo as respostas de suas indagações à Tropicália, que decerto retornará, quiçá ainda hoje, à esta caixinha para convosco debater.

Prazer em revê-lo, e um abraço.

Anônimo disse...

Não diria que foi uma análise psicodélica (o que seria mais divertido), mas, certamente, bem desinformada dos cenários institucionais onde se faz a grande política. Não se exige conhecimento técnico de ministro (o conhecimento e o mundo das técnicas é plural e não enciclopédico). Exige-se, sim, que tenha domínio político sobre o assunto da pasta, que tenha vontade e energia política para conduzir as ações sob sua responsabilidade, pois enfrentará adversários ideológicos de diversa ordem e estatura tanto dentro quanto fora do governo. Competência técnica se exige de assessores, tanto no mundo tropical, quanto nas zonas temperadas do planeta.
Resumo da ópera: De saco cheio, Marina saiu do governo com a dignidade de quem sabe reconhecer seu papel histórico num cenário adverso e desgastante. Soube que chegara ao fim da linha, depois dela seria a desmoralização pública. Não deu um tapa com luva de pelica, mas um pontapé com meias de seda. Posso garantir que está doendo em quem o tomou, e vai doer ainda mais na medida em que os fatos se sucederem.
Quanto a questão federativa, Tropicália tem um raciocínio muito centralizador e isto não é bom para quem demonstra preocupação com os problemas do federalismo brasileiro. Grande parte dos nossos problemas nessa área tem origem na fraqueza das políticas dos governadores e em suas respectivas bancadas legislativas, quer estadual, quer federal, e até mesmo dentro de seus partidos; na desarticulação das lideranças civis.

Anônimo disse...

Caro Juca ! É interessante a capa de O LIBERAL, que informa : ''Sem prestígio, Marina Silva sai''. Eu sei que quando uma pessoa está prestigiada no cargo, é por que ela está pra sair...agora, a pessoa sair pq está sem prestígio, é a primeira vez...exemplo : o Edson Boaro está prestigiado no Paysandu..he he he ....saudações para vc, do Mediador de Emoção ! Obs : O ''espaço aberto'' é a fonte de um jornal ou o jornal é a fonte do espaço aberto ?

Bia disse...

Boa noite, Juca querido:

li hoje grande parte do noticiário sobre a saída da Ministra. Acabei encontrando algumas razões das quais Mangabeira é figurante, como sói ser depois que se apartou de Brizola, sempre que se precisa de um canastrão. Com sotaque, é claro.

O Plano Amazonia Sustentável, ao qual a Ministra deu grande importãncia a partir de 2005 e que foi postergado pelo governicho Lula, acabou sendo "lançado" (de para-quedas?) no dia 8.

A maioria dos comentaristas ligados à questão do meio-ambiente faz ilações entre a brusca saída da Ministra e a aprovação do PAS. Em meio a isso, a Câmara Federal aprova a MP da grilagem, da qual até Sarney Filho reclama (razão pela qual vou prestar mais atenção às crítias...rsrsrs...).

Quanto à Tropicália, gostei muito dos "recursos escassos privadamente apropriados". Imagino que a cometarista deve admirar a gestão urbana de Belém. Em lugar algum mais do que aqui, o espaço público é privadamente apropriado.


Fica uma curiosidade sobre este vasto parágrafo e meio:

"...Traçar equivalência entre função administrativa e trajetória política é fundamental mas não se pode esquecer que em uma função dessa envergadura o conhecimento técnico-científico é fundamental.
Ao dar equivalência semântica entre a questão ambiental e a trajetória política da ex-ministra Marina Silva retornamos aos termos do romantismo para o qual a individualidade e sua abstrata aspiração são capazes de modificar as estruturas do mundo real(...)".

Isso vale para o Presidente Lula também?

Beijão, Juca. A Ministra merece sair dessa embrulhada. Carlos Minc merece o cargo nesse desgoverno.
Melancólicos somos nós, os brasileiros, empanturrados de mídia, de faroleiros e de mães de impactos. Tô quase achando que merecemos também a Dilma para presidente.

Com um slogan do tipo: Descanse, que a mamãe garante.

Beijão, de novo.

JUNIOR disse...

Caro Juca concordo com o Dep.Parcifal e com anônimo das7:29PM e também gostaria de acrescentar que eu e Dr.Alex a algum tempo atráz debatiamos sobre a questão do pacto Federativo que rege a nossa Amazônia e até achamos que poderiamos fazer aqui no Pará um evento desse porte que teria como tema principal exatamente "OPacto Federativo e Amazonia"passando também pela verdadeira atuação dos tais ditos ambientalistas da Amazônia,lamentavelmente fomos covidados a esquecer o assunto,pois LULA tinha acabado de criar o "conselho de desenvolvimento Economico e Social" e não seria aconselhavel fazer naquele momento um evento daquela magnitude.

Anônimo disse...

A Amazônia sempre fez parte da federação, como almoxarifado. E qualquer tentativa de mudar isso sempre é tachada de romantismo.

Oliver disse...

Concordo com o deputado. A propriedade não subsiste sem autoridade. Lembro do susto levado por um amigo meu, certa vez, ao deparar em Miami com um belo jardim, onde lia-se a seguinte placa de advertência:
"Não entre. Propriedade privada. Aquele que a noite o adentrar sem autorização, certamente nele será encontrado pela manhã..."
O mundo é terrível, Tropicália. O romantismo há que ser duro para enfrenta-lo, mas sem perder jamais a racionalidade.

Alex Lacerda disse...

Não concordo com a visão do Dep. Parsifal, é a visão do político. Acredito que se houvessem mais téc. nos cargos ditos políticos, teriamos decisões acertadas, ao invés de tentativas e erros que vemos em muitos casos. Vejam o caso do ex-ministro da agricultura, Roberto Rodrigues, que teve trabalho elogiado por todos, político e técnicos.
Já sobre o novo Ministro, se Lula acredita que com ele irá acelerar o PAC, não conhece realmente a área ambiental.

Bia disse...

Bom dia, Juca querido.

Bom dia, Oliver.

Acreditarmos que a Ministra era apenas romântica é desmerecer sua permanência nesse governo "confuso". Marina venceu batalhas. Com raiva, até, mas sem romantismos. E tinha que ser assim: um certo exagero do lado de cá, pra compensar toda uma estrutura arraigada de expoliação e privatização do coletivo do lado de lá.

Dificilmente Mic vai alargar essa trincheira. Temo que sua presença no Ministério deva-se muito mais a alardear que ele é um ambientalista xiita - do tempo que colocava batatas (acho que eram batatas) no escapamento dos carros no Rio de Janeiro - mas "racional", tanto que era secretário do SérgioCabral (que saudades do pai!).
Mas, o melhor mesmo é darmos um tempo.
Espero que nenhum de nós tenha toda razão.

Beijão, Juca.

Abraço, Oliver.

Anônimo disse...

A saída da Marina é uma vitória para os devastadores da floresta. Ela saiu, mas com certeza vai continuar na luta contra os perseguidores de índios, quilombolas, aqueles que enriqueceram com a grilagem, mão-de-obra escrava e morte de trabalhadores rurais. O Jorge Viana está de parabéns em recusar o cargo, já que o Lula insiste em manter o Mangabeira no comando plano ambiental.
Vamos torcer para que os devastadores com apoio da bancada do chicote consigam manter pelo menos algumas arvorezinhas em pé.
Que Deus tenha piedade de nós e da floresta.

Oliver disse...

Abraço, Bia. Apareça.

Anônimo disse...

A melhor análise que li. Tropicália tá melhor que os analistas de Folha, Estadão, Globo, France Press, Le Monde, NY Times, The Times(London), etc.
Parabéns!

Tropicália disse...

Prezados comentaristas do 5º Emenda, percebam:
1. Não afirmei em nenhum momento que a Sra. Marina Silva é romântica em suas ações;
2. Não disse que sou favorável à captura do público pelo privado.
Coloquei duas questões no contexto da demissão da Sra. Marina Silva.
Uma refere-se à análise do discurso social construído para descrever as teses sobre o meio-ambiente e a complexidade do mundo contemporâneo. A outra é uma sintese analítica sobre o modo-de-produção capitalista e as mudanças institucionais gestadas ao longo deste processo civilizatório. Não se trata de opinião, nem de desejos, mas de evidências históricas.
As duas são complementares, não excludentes.
O Romantismo marcou os debates inteletuais do final do séc. XIX, e pode ser detectado nas argumentações de intelectuais brilhantes como Weber. Não se trata de discurso objetivado em racionalidades, mas no profundo desamparo trazido pela velocidade das transformações engendradas pelo capitalismo.
Não estou me referindo a intencionalidades individualmente produzidas, mas a perda de referentes existências.
É necessário cobrar da Federação políticas diferenciadas de repasses de impostos e de impactos demográficos. Não temos muitas saídas. Estas políticas deveriam ser encaminhadas pelas universidades, pelas Ongs, pelos movimentos sociais e, principalmente, pelos nossos representantes no executivo e no legislativo, além, é claro, dos formadores de opinião.
A questão pode até parecer psicodélica já que a política ambiental é lisérgica, mas está fundada no problema da autoridade e de seus sentidos modernos: o conhecimento. Daí a importância do conhecimento técnico-científico.
Vocação e Ciência é um dos grandes temas da política ocidental e aqui parece que foi confundido com idealismo. Paciência! Pois se há uma fratura realizada pela objetividade do conhecimento científico nos domínios da Política ela está exposta claramente no debate aqui travado: o cinismo é a condição da ação política quando os fins a que se propõe negam as evidências de destruição e de danos às populações e às gerações futuras.

Juvencio de Arruda disse...

Das 7:35, obrigado.
Tenho a mesma opinião.