7.5.08

Tragédia Amazônica

Do jornalista Nélio Palheta.

O julgamento do fazendeiro é mais uma história amazônica. Ou apenas um capítulo da trajetória deste mundo de fronteira. História de fim de mundo.
Fui o primeiro jornalista a chegar a Anapu naquele sábado caótico para a o Pará, a Amazônia e o Brasil. Havia uma multidão na praça central da cidade cuja avenida principal é a própria Transamazônica. O aglomerado era mais por causa daquele gigantesco helicóptero militar pousado milagrosamente entre umas estruturas de concreto que servem de adereço arquitetônico da praça – uma espécie de anfiteatro. A ministra Marina Silva estava na casa de Dorothy, perto da praça. Do meio do povo, uma voz me chama. – Quem, ali naquele lugar até então desconhecido pra mim, poderia me conhecer – pensei? Era o dono da farmácia em frente à praça. Um vigiense! Vigiense tem em todo lugar, até no palco onde se desdobram histórias como essa. Ele tinha o único telefone capaz para falar para fora de Anapu.
Infelizmente, os afazeres em nome do governo, que me levaram ao município do crime, junto com a polícia, impediram-me de chegar até no local do crime propriamente dito. Não podia me afastar da polícia e do único computador com internet na localidade, que requisitei ao Banpará, ao lado da delegacia improvisada num prédio comum, sem cadeia; não tinha telefone, mas tão-somente um orelhão na parte externa, por onde a imprensa do Brasil inteiro se comunicava comigo, além da minha equipe da comunicação do governo estadual.
O corpo de Dorothy chegou à noite do sábado. Ficou no necrotério do hospital local. Legistas fizeram as primeiras tomadas de dados ali mesmo. Eu fiz uma lista dos papéis, anotações diversas, identidade, quase nenhum dinheiro, listas de telefones manuscritas que estavam dentro da pastinha surrada de congresso, que ela usava e com ela ficou (devo ter em algum arquivo de computador esses dados). Úteis talvez para o inquérito policial. Não sei se foram suadas. Informações agora mais emudecidas ainda com o resultado desse julgamento. Dorothy vestia uma bermuda talvez branca (estava muito enlameada), camiseta de um movimento popular, calçava tênis e meia de cano curto rósea. O legista fez as primeiras tomadas de dados. Foi uma cena pesada. A imprensa me azucrinando porque queria foto do cadáver. Acabamos brigando (no bom sentido) para que não se potencializasse a imagem negativa. Era meu papel. Mas o fotógrafo Paulo Santos fez a foto que varreu a imprensa, sob minha concordância de assessor de imprensa do governo.
Praticamente não comemos naquela noite porque os ovos fritos com pão ficaram prontos na hora que o corpo de Dorothy chegou a Anapu. Foi difícil engolir o que seriam sanduíches. Aquela imagem de Dorothy sobre a pedra fria de granito, ensangüentada do necrotério agravou minha insônia naquela noite e madrugada de domingo. Não lembro ter deitado num colchão velho, azedo, coberto com um florão de chita literalmente rasgado e remendado. Eu e o delgado, na mesma cama –era o que restava, uma só - não dormimos. Chovia torrencialmente. Ficamos elucubrando teorias jornalístico-policiais. Às cinco da manhã pulamos da cama. Sob chuva e a escuridão da madrugada, o delegado e alguns policiais civis e militares tomaram uma pick up rumo ao PDS onde Dorothy Stang foi morta. Fizeram 40 km de uma estrada de terra lamacenta em 4 horas. Retornaram, só no fim da tarde daquele domingo, com algumas certezas e algumas pistas que levariam à prisão do pistoleiro e ao mandante. E na mesma noite enfrentamos a Transamazônica, por meio de chuvas e muitos precipícios, um roteiro de 100 quilômetros, até Altamira. Tudo que a imprensa do mundo todo publicou nas primeiras horas da cobertura do caso Dorothy Stang teve como fonte os relatórios que enviei de Anapu e que foram distribuídos pela Agência Pará, da Coordenadoria de Comunicação do Estado.
Não me julgo mais capaz do que juiz, advogados de defesa e membros do Júri para dizer que é o fazendeiro é ou não é culpado. Porém, qualquer mortal sabe que não é justo. Que essa história de o pistoleiro ter agido por causa própria é diatribe advocatícia. Os defensores podem ser inteligentes, tecnicamente capazes para livrar o mandante da cadeia, mas a sociedade não engole. Alguém mandou matar a religiosa. A Polícia e a Promotoria recolheram provas cabais. Alguém tem que ser punido além de reles pistoleiros.
A Transamazônica é tão cheia de colonos, agricultores e posseiros quanto de fazendeiros, grileiros, gatos, usurpadores de incentivos fiscais e de outros recursos públicos. E também de pistoleiros e mandantes de crimes que compõe as histórias de ocupação da Amazônia.

11 comentários:

Lafayette disse...

A nota do Sen. Nery, e demais manifestações acerca do julgamento do Witalmiro Bastos e Moura, pelo assassinato da Dorothy Stang, merece, a meu ver, sempre uma conclusão que não leio aqui e alhures.

A de que a instituição judicial, o processo legal, a garantia de aplicação da jurisdição está sendo prestada (já escrevi, inclusive publicado, à época, no "O Liberal", na Carta do Leitor, que o procedimento célere, dinâmico etc., no caso, só ocorreu devido "algumas condições especiais" da irmã, pois, os Zé's e João's, cujos assassinatos estão e vão ficar impunes, não "mereceram" tais "benefícios" do Estado).

Eu adoro a Constituição Federal. Costumo dizer que, se a Carta fosse cumprida, não precisaríamos de mais leis.

Aos outros Zé's mortos e a morrer (tem até lista!), bastaria o inciso LXXVIII, do Art. 5º: "a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação."

Caro Sen. Nery, devemos acreditar e respeitar o Poder Judiciário, assim como, devemos acreditar e respeitar o Senado da República. Devemos, isso sim, lutar para que funcionem “conforme determina a Constituição” (olha ela aí de novo!).

O MPE deverá recorrer e o Poder Judiciário fará análise, novamente, do caso. É isso que a Constituição Federal quer dizer no Art. 5º, em seu inciso LV: "aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e RECURSOS A ELA INERENTES;"

Em uma das caixinhas, alguém "imaturo ou de má-fé", com diria a Valéria, disse que os membros do Júri, no caso em comento, foram comprados, e que não deveriam andar de cabeça erguida pelas ruas.

Outro, disse que o desaforamento, aventado, inclusive, a época, era a solução, necessário.

Como advogado e cidadão paraense, fico revoltado, e me é como um soco na cara, ou uma ofensa a minha mãe, toda vez que ouço falar em desaforamento, inclusive para outro Estado, ou, em um juridiquês de quinta (desculpe), federalização do julgamento.

Temos moral e justiça! E, se melhorias deve ter, lutemos, como já disse. Transferir julgamentos para outro lugar e cortar a cabeça, em casos de cefaléia.

No mais, se o réu, que estava preso (e veja só Juvêncio, se inocente mesmo, prendeu-se um inocente!!! Ps.: inocente do crime que é/era acusado, diga-se), for o mandante do assassinato da Dorothy, o Poder Judiciário o condenará, caso contrário... mantem-se um inocente solto (prefiro assim!).

A Constituição é clara: Art. 5º, inciso LIII: “ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente.”.

Portanto, “autoridades (in)competentes”, externem suas idéias, mas deixem o julgamento para quem de direito, pois, uma décadas atrás, quem não tinha o dirieto, inventou de inventar que podia julgar, e deu no que deu e todos nós conhecemos os resultados.

miguel oliveira disse...

Acho que o Nélio cometeu um lapso de tempo.

As primeiras jornalistas que chegaram ao local onde o corpo de Dorothy ainda se encontrava no chão, uma hora e meia após o crime, foram as repórteres Iolanda Lopes e Claudete Teodoro e mais o fotógrafo do jornal O Estado do Tapajós cujo nome se mantém no anonimato até hoje a pedido dele.
As fotos de Dorthy morta correram o mundo com o crédito do jornal O Estado do Tapajós,inclusive, recentemente foram incluídas em um filme sobre a vida da missonária, produzido nos Estados Unidos por Anne Estman.
Há o registro fotográfico do jornal até a remoção do corpo para a carroceria de uma caminhonete. Até aquele momento não havia outros jornalistas naquele travessão da rodovia, apenas posseiros, policiais ( acho que um deles tirou fotos também) e a equipe de O Estado do Tapajós, que estava em Anapu desde sexta-feira cobrindo a distribuição de sementes de capim por alguns fazendeiros daquela região justamente nas terras onde se pretendia criar o PDS Ananpu.
Depois, a cobertura da morte se ampliou.
Faço esse registro apenas para ressalvar o importante trabalho que duas jovens repórteres e um repórter-fotográfico tiveram na cobertura desse triste episódio.

Miguel Oliveira

Anônimo disse...

Em suma, o Lafayette, com ipsilone e dois tês, defende não só o resultado como a absolvição de todos os mandantes, para honra e dignidade de ser advogado e cidadão paraense. Quem não concordar com ele é imaturo e de má-fé, incompetente e se a autoridade (competente) decidiu que o mandante mandou mas é inocente, quem não gostar que vá se queixar ao bispo, mas vá logo, antes que ele seja morto a mando de outro inocente.

NÉLIO PALHETA disse...

Caro Miguel, é verdade, um lapso!Entretanto, sem vaidade, não fica prejudicado meu registro considerando o papel que exerci naquele momento crucial para a imprensa - o que, pela natureza do trabalho distinto de cada um, a equipe do jornal não poderia fazer. Aliás, é de se registrar que se tratou de um furo da equipe de Altamira. Só não maior porque não se tratou de material distribuído à larga, de imediato. Mas furo é furo (aliás, ainda existe isso?) e sabemos que as fotos ganharam o mundo.
Nélio Palheta

Francisco disse...

Caríssimo Juvêncio,


É inesgotável a (in) capacidade brasileira de produzir , tudo de acordo com a legislação em vigor... , barbaridades como essa que nos brutaliza mais uma vez .

O Ministro Marco Aurélio de Melo, do STF , disse , há pouco , o que há muito penso - não há nenhuma razão jurídica para que , em casos como esse , a lei determine um novo julgamento!(?).

O Código Penal e seu correlato processual estão a merecer , há décadas (!) , uma revisão que se lhes modernize conceitos e penas , adequando-os à nova realidade mundial e brasileira, e simplesmente NÀO SE CONSEGUE!

Isso, meu querido Quinta , é tarefa legislativa, vale dizer, dos nossos deputados e senadores , que se comprazem nos últimos lustros a nos surpreender (sempre) negativamente , agindo na contra-mão dos anseios populares nacionais.

Nessa área de segurança então , é um descalabro! Os episódios brutais e animalescos se sucedem sem que, após a comoção que eles detonam , nossas senhorias se mexam!
Quem não se lembra do menor de idade que violentou e barbarizou uma jovem e seu namorado em São Paulo ?
Do jornalista chefe de redação de um grande jornal de S.Paulo que matou , covardemente (pelas costas) sua ex-namorada , e decorridos 6 anos do crime CONTINUA SOLTO ?
E do médico que matou e retalhou o corpo de sua ex-namorada , foi julgado, DEPOIS DE 5 ANOS , e não cumprirá mais do que 12 meses na prisão?

São apenas ( e bote apenas nisso ) 3 casos de MILHARES que este país produz SEM QUE MEDIDAS EFETIVAS E CONCRETAS SEJAM TOMADAS, pô ( sorry , tô meio amargo hoje...).

Pode haver caso mais emblemático dessa problemática toda do que a morte cruel da atriz Daniela Peres???
Qual vivente de um país sério , por exemplo, acreditaria se lhe fosse contado o caso e dito que o casal responsável pela matança cumpriu menos de 6 anos de cadeia , foi solto e de suas fichas criminais apagadas quaisquer referências ao crime , tudo ( viu sr. Lafaiete?) de acordo
com a legislação brasileira!

Veja o que aconteceu na Áustria, agora, e seus legisladores já começam a discutir meios e medidas concretas para tentar impedir a reprodução de tais condutas.
Juvêncio, o ser humano respeita ( claro, com o relativismo que se impõe),
em primeiro lugar , A PENA
, cujo enunciado deve ser claro e preciso, para que dela todos tenham ciência e entendimento e sua aplicação facilitada ;

em segundo lugar , há que haver A CERTEZA DA PUNIÇÃO. É a famosa punibilidade. O agente infrator tem de estar ciente de que , em cometendo tal infração, COM CERTEZA será punido assim e assado!

E o Estado tem de assegurar que o infrator cumpra , efetivamente , a pena que lhe couber, e não , como sói acontecer nestas plagas , cumulá-lo de benefícios que reduzem drásticamente o dano social que ele deve pagar.
O Código Penal data dos anos 40 e há , no Congresso , não um mas vários projetos tentando reformá-lo, só que o tempo passa e NADA ACONTECE , e , pasme , por mais escabrosa que seja a realidade oferecida aos nossos deputados e senadores a cada esquina...

Por quê?

O Brasil nunca oferecerá verdadeira Justiça aos seus cidadãos enquanto não tivermos uma profunda e radical ação legisferante e estrutural no aparelho judiciário brasileiro.

E o que nos desanima ( perdoe-me caríssimo Juvêncio) é esse dia-a-dia .

É essa omissão.
É essa mudez.
É esse dar de ombros.
É essa incompreensão.
É essa repetição.
É a solidão...da ação.

Com o carinho ,

do

Anônimo disse...

O interesse é que no relato do Nélio, ele descreve uma região totalmente esquecida de nosso Estado, em pleno século XXI os trabalhadores e moradores de Anapu e toda transamazônica só conhecem a grilagem, alei dos mais fortes e a morte e não os benefícios do progresso social.
Descreve a região como quem não fez parte do governo de então.
Não é a toa o sentimento de separação.
E durante todos estes anos justamente os que foram responsáveis por este e por outros assassinatos estão impunes, fazem parte de uma elite econômica e política e continuam intocáveis, aliam-se a políticos e partidos que prestam-se a defender grileiros e madeireiros inescrupolosos e a andar o Pará contra a operação Arca de fogo, bem como arrotam que é uma orquestração contra o desenvolvimento do Pará dizer que aqui existe trabalho escravo.
Essa é a nossa elite, ¨empresários¨ da morte, da viuvez da orfandade e amparados por uma corja que se aloja nos gabinetes palacianos e parlamentar.
Não poderia ser outro o resultado neste nosso Pará.
Uma justiça de classe, a dominante, e um crime dos ricos e como todo crime de ricos não se faz justiça, nunca.

lafayette disse...

Ei Anônimo das 5:30pm, vai patrulhar outro. Não sei o que tu tomastes
antes de ler o que escrevi, mas tuas conclusões devem ser de alguém
muito mamado.

Já disse aqui que não vou com a cara de anônimos. Acho-os uns
covardes. Principalmente no meu caso, que o anonimato em nada protege.
Se estivessemos no ano de 1969, por exemplo, se fosses um subversivo e
eu um milico, vá lá. Mas nem uma coisa, nem outra. És um covarde
mesmo.

Do me escrito, poderia te dizer que estava falando de democracia.

De princípios constitucionais gerais.

De devido processo legal.

De que, bem ou mal, temos um julgamento com regras predefinidas.

De que, deves ser um daqueles Generais da reserva, que vivem sonhando
com os negros aureos tempos em que mamavam na viúva, sem controle, sem
MP forte, Ongs combativas etc, etc.

A 'Auditoria de Guerra', meu caro covarde, acabou! A tua época já
passou. E se voltar, sou primeiro a ir para clandestinidade e ir às
armas.

Poderie te dizer que há Recurso de Apelação ao Tribunal.

Te explicar à luz do Código de Processo Penal etc, etc, mas prefiro te
mandar estudar.

Se ele for JULGADO e condenado, está certo. Se ele for JULGADO e
absorvido, também está certo. O que interessa, pelo menos pra mim, é
que ocorra um julgamento legal, constitucional.

Agora, do meu texto, chegar a conclusão que sou a favor de assassinos,
é, no mínimo, uma imbecilidade.

Ass: Lafayette, com y e 2 t's, seguido de um Bentes, de Óbidos e,
concluído com um Costa Nunes, de Altamira/Propriá-Se."

Bia disse...

Bm dia, Juca querido.

Bom da Francisco,

completo seu post, mesmo sem a sua permissão:

É essa vil tristeza.


Abraço, Francisco.

Beijão, Juca.

Juvencio de Arruda disse...

Bom dia, queridona. Tão cedo da manhã...É, estamos todos tomados de uma vil tristeza.Mais ainda quando vimos a imundície que foi a representação da sociedade no tribunal do juri, não menos legítima por isso, mas nem por isso imune às críticas.
Acho que a nota do Arnaldo Jordy disse muito: parece que foi uma desavença pessoal.
E feliz o blog que reúne, na mesma caixinha, Francisco e Bia.

Abs, Francisco
Bjão, Bia.

Anônimo disse...

Se ele for JULGADO e condenado, está certo. Se ele for JULGADO e absorvido (sic), também está certo. O que interessa, pelo menos pra mim,é que ocorra um julgamento legal, constitucional.
E o senhor Lafayette, além das agressões baratas e conformes ao que deve ser seu caráter, não precisa dizer mais nada.Justiça, para ele, é só mais um espetáculo pirotécnico, de acordo com o script.

Paulo disse...

Caro Nélio,
Realmente não sei de onde tirastes esta idéia que trabalhei com tua concordância durante a cobertura do assassinato de Dorothy Stang. Além de não trabalhar para o governo do estado há vários anos como bem sabes. Além do que estavas ali gerenciando uma crise para o governo e não como jornalista independente. Apenas para registrar, nem vou entrar no mérito de quem chegou primeiro ou não, afinal o importante ali foi denunciar a terrível ação dos grileiros na região com a morte da irmã Dorothy. Abs.

Paulo Santos