24.11.08

Redistribuição e Reconhecimento

No blog do Alencar.

Foi posto nos trilhos e começou a andar mais um vagão de cotas raciais e sociais, que ontem ( quinta, 20 ) partiu da Câmara, agora vai para o Senado e o destino final será as Universidades Públicas.
A medida é simpaticíssima e politicamente correta.
Mas, com todo o respeito, é um remendo aplicado por uma sociedade política - e civil também - que não quer - e não quer mesmo - resolver o problema de fundo, que é a brutal desigualdade social e regional, bem medida pelo índice de Gini.
Claro que qualquer crítica que se faça a essas cotas expõe o crítico ao risco de maldição imediata e perpétua.
Prefiro correr o risco de receber de volta pedras - ou até uma pedreira inteira - do que deixar passar essa oportunidade de colocar o dedo na verdadeira ferida, que é a desigualdade social e regional.
As bolsas e cotas são remendos que não dão a solução completa e definitiva para esse problema de fundo, sem a qual continuaremos onde estamos, embora possamos progredir economicamente e posar de BRIC ou membro do G-20.
E como muitos já disseram antes - e por isso mesmo estão ou foram para o ostracismo - nenhuma dessas duas ações afirmativas apontam a porta de saída.
Assim, corremos o risco de perpetuar a desigualdade e seus remendos, as bolsas e as cotas.

12 comentários:

JOSÉ DE ALENCAR disse...

Obrigado pela repercussão, meu caro Juvêncio.
Abraços solidários.

J. BEÁ disse...

Juvêncio,

Fico feliz de ver que vc que é formador de opinião, mostre a sua e a faça dessa maneira. Realmente, vejo por aí mta gente concordando ou ficando calada para o problema maior.

Esse mito das cotas foi criado a partir da interpretação errada das estatísticas dos censos que diz que quem tem nível superior tem bom padrão de vida, o que não tem relação direta. É óbvio! Essas pessoas tem bom padrão porque já tinham antes, seus pais conseguiram garantir que estudassem sem ter que trabalhar ou faze-lo já no final de sua formação. Isso ajuda muito, diria que é fundamental. Obviamente, que existem as exceções.

A formação em nível superior não garante qualidade de vida, nem progressão social. Qtos advogados, contadores, enfermeiros, engenheiros, etc. estão por aí em outras atividades que sequer exigem alguma preparação? E estão estancados socialmente?

Além disso, não dá pra esconder, estes jovens beneficiados pelas cotas chegam com poucas condições nas universidades, como vão seguir estudos avançados se no básico são medíocres?

Por favor não entenda que estou relacionando competência com cor, isso não existe. Falo de competência x qualidade na formação.

Caro Juca, o caso é simples: qual o custo de abrir cotas? NENHUM, gasta-se apenas em propaganda pra dizer que "nunca antes neste país se fez por estes esquecidos". Que continuarão assim pois não existe proposta, projeto, política ou recurso para mudar o quadro existente.

Já ouvi vários depoimentos, fui disposto a ser convencido, mas não vejo saída. Aqueles que concordam vejo que só querem o imediatismo ou uma revanche racial.

Abs,

J. BEÁ

Anônimo disse...

Sr. Juvêncio,
Politizam tudo.Veja que os próprios beneficiários das cotas estão divididos.
O mesmo ocorre com o meio ambiente, com a polícia federal.
A pirotecnia é mais importante.
Uma pergunta impertinente:
"Será que os cotistas quando saírem das Universidades não serão discriminados pelo mercado?"
Isso se precisarem do mercado, que ainda é o maior balcão de emprego, apesar da crise neo-liberal.
Nilson.

Bia disse...

Bom dia, de novo, Juca querido:

o respeito e o carinho que tenho pelo Alencar me dá a certeza do seus propósitos absolutamente justos ao questionar a política de cotas.

Da mesma forma, sei que o carinho dele por mim é recíproco e assim, tenho certeza que ele considerará os argumentos abaixo.

A política de cotas raciais negativas sempre foi aceita sem traumas pela sociedade brasileira. Não fosse assim, pretos e pardos não seriam maioria entre os analfabetos, os indigentes, os pobres, os que ganham salários menores mesmo exercendo funções iguais, os que são minoria absoluta entre os universitários, os p´rofessores, os qe exercem cargos hierarquicamente superiores.

As ações afirmativas, ao contrário, têm provocado comoção na sociedade e até intelectuais considerados "progressistas", como Demétrio Magnoli, por exemplo, alinharam-se a "criaturas" como Yvoone Maggie e são hoje da legião dos que consideram as cotas racistas! Nenhum desses é o caso do Alencar.

Há estudos importantes, demonstrando que mesmo com a universalização do acesso à educação, para ficarmos nesse exemplo, a população negra não consegue romper a distância da média de anos de estudo entre eles e os brancos, numa paralela que já tem 40 anos, demonstrando que op destino do avô ainda é o mesmo do neto.

A política de cotas raciais tem um horizonte temporal, não é benplácito da sociedade. É, no mínimo, reparação. Para que garana-se a disputa entre condições semelhantes. E, estudos já realizados pela UERJ, onde a política de cotas já está implantada, tem demonstrado que estes cotistas têm desempenho acima da média, ´desmentindo a afirmativa de muitos que a política de cotas vai" piorar" o nível de ensino.

Há muito a dizer nesta questão. As cotas servirão também para estimular a auto-estima ao colocar nas universidades, nos hospitais, nos tribunais, nos cargos públicos, negros e negras, que serão exemplos de sucesso para a infância e para a juventude negra que hoje têm como exemplo apenas - e deliberadamente, pelo nosso cruel e "virtuoso" raxcismo - as páginas policiais dos jornalões.

Um abraço pro Alencar.

Beijão, Juca.

Leopoldo Vieira disse...

Juca,

Deixo a minha contribuição ao debate, publicado no JUVENTUDE EM PAUTA:

Cotas: a invasão da universidade pelo povo

A Câmara dos Deputados aprovou hoje cotas de 50% para negros, pardos, índios e engressos da escola pública nas universidades federais, estendendo o direito para os CEFETs. Neste dia em que se celebra a resistência dos Palmares, melhor resultado impossível para as lutas da juventude negra e trabalhadora.


Apesar da oposição à medida ser propagada por intelectuais ligados às classes dominantes e alcançar até mesmo estudantes, geralmente os que têm pais que podem pagar pelo ensino privado, ela é a parte mais importante da reforma universitária construída gradualmente pelo presidente Lula, coerentemente com seu programa de inversão de prioridades e atenção à juventude, pois se refere à democratização do acesso à educação superior. O modelo de universidade, ainda em disputa, é central, mas seja qual prevalecer no Brasil a médio e longo prazo, todas as classes sociais, pessoas de todas as cores já invadiram a, então, "torre de marfim" do conhecimento, como desejava Che Guevara em seu legendário discurso aos estudantes cubanos. Agora jovens que tiram "notas vermelhas" no ENEM, apesar dos progressos da rede pública, relegados a trabalharam no sub-emprego, precaridade e funções econômicas secundárias (como considera a elite o trabalho assalariado) e subalternas, poderão sonhar com um futuro melhor e dar sua contribuição especial ao desenvolvimento nacional.


Contra os argumentos dos anti-cotistas há defesa irrefutável:


1- Os cotistas obtiveram desempenho melhor do que os que ingressaram pela meritocracia tradicional, conforme documenta enorme gama de pesquisas recentes, provando que o acesso à universidade, além de estimulante, nada tem a ver com o conteúdo ministrado no ensino médio, pelo menos não de modo complementarmente automático.


2 - A meritocracia tradicional, portanto, não prova nada a não ser o que todos sabemos: que a rede particular é mais bem estruturada que a pública, por causa da reforma educacional da ditadura e dos anos de neoliberalismo (1990-2002).


3 - A auto-declaração é o método mais adequado, pois sem influenciar a priori nas decisão de implantar as cotas, cujo objetivo primordial é possibilitar mobilidade social ampla, geral e irrestrita mediante a educação, ela estimula a consciência étnica, fundamental para o Brasil dar passos firmes na superação do seu racismo envergonhado.


4 - A dimensão racial das cotas é o pagamento justo da dívida social do Estado brasileiro para com os povos indígenas e a população negra, excluídos por ele, no que tange à legalidade, historicamente, das possibilidades mais aprimoradas de desenvolvimento humano.


5 - A juventude "pobre, preta ou quase preta de tão pobre" não pode esperar gerações e gerações pelo incremento da rede pública, pois isso signfica mais décadas e décadas de exclusão social e obstáculos ao seu desenvolvimento pessoal e coletivo étnico e de classe, que se integra em quantidade e qualidade ao regime democrático no seu aspecto mais importante: o sócio-cultural. Além disso, como referido, é a educação dos antigos 1o e 2o graus não é o que define o desempenho na academia. Isso não guarda contradição com a necessária revolução na educação básica que dá seus primeiros passos no governo do PT.


As cotas representam mais progressos na utopia de construir um Brasil desenvolvido pelo investimento geracional, na juventude brasileira, alterando para muito melhor sua condição social desde já. Agora é fortalecer as mobilizações para aprovar também no Senado a invasão da universidade.

Juvencio de Arruda disse...

Não tem de que, carissímo Alencar.
Pela qualidade e quantidade dos primeiros comentários, percebe-se a excelência da pauta, onde até a Juventude entra.
Obrigado aos comentaristas e um abraço especial à vc, Alencar, pelo seu abraço especial.

Cássio de Andrade disse...

O velho debate das cotas de sempre! Com todo respeito, mas é impressionante como no meio acadêmico se cristaliza o discurso anti-políticas afirmativas reunindo argumentos que balizam a meritocracia, o reacionarismo e o esquerdismo. De novo, o ingrediente da desigualdade social e do reconhecimento das lutas de classe a ocultar os velhos preconceitos herdados do patriarcalismo escravocrata (apesar de não morrer de amores pelo faorismo).
A política de cotas não constitui em si nenhuma reparação moral ao passado da escravidão, mas parte de uma política de ação afirmativa que, pelo reconhecimento da singularidade, fortalece a igualdade no acesso à cultura e à educação a segmentos sociais etnicamente excluídos, exclusão esta já cientificamente comprovada nesse próprio meio acadêmico. É a leitura dialética da dinâmica social que afirma a eqüidade na diferença. O problema é que a lógica do direito formal não consegue ou teima não enxergar. Por que, então, se comemora a vitória de Obama como "apanágio da democracia norte-americana" e não se reconhece que sua ascensão social e política foi fruto de uma histórica política de ação afirmativa? Condolezza chegaria à função que atualmente ocupa na Casa Branca, sem política afirmativa? Acaso, nos EUA as ações afirmativas seriam mais justas pelo racismo aberto e declarado do que no Brasil, camuflado e mascarado pela "democracia racial". Há muito se sabe que o racismo brasileiro não se esgota na classe, mas na cultura de um preconceito histórico e secular que atinge variados segmentos de nosso mapeamento de cores. Esquecer esses elementos é colocar, sim, para debaixo do tapete da exclusão social, as representações míticas da desigualdade que teimamos utilizar para esconder o que pensamos realmente de negros índios no país. Será que por trás de nossos belos argumentos de reconhecimento da desigualdade não se oculta um espírito mainardiano?

Anônimo disse...

As cotas são um mero remendo, muletas, para manter o status quo do total desprezo à uma verdadeira revolução educacional, aquela que começa pela base, pelo fundamental e a seguir pelo ensino médico público com qualidade compatível com o privado.
Chega de tapar o sol com peneira. De dar muletas, de dar esmolas, de fingir que vai qualificar o pobre e o negro. Eu, na qualidade de professor universitário desde 1976, vejo que meus alunos que conseguem entrar na UFPa vindo do ensino público, não são capazes de sequer redigir um parágrafo ou de entender uma operação com fração decimal. Claro, não foram devidamente preparados para isso. O resultado: um rebaixamento geral do nível de ensino para que todos da sala possam apreender o mínimo. Perdem todos, inclusive a sociedade.

Bia disse...

Bom dia, Juca querido:

o argumento do Professor anônimo é contestado - no que se refere às cotas - por avaliações da UNB, da UERJ e da UFBa. Os alunos cotistas têm desempenho melhor do que os alunos não-negros. A avaliação é, inclusive, óbvia: vencida a barreira do acesso à Universidade esses alunos demonstram melhor do que os demais o seu potencial e seu compromisso. Aplicam-se no estudo e no aprendizado.

O problema é que quando se discute cotas para negros, boas almas - sem ironia - levantam a tese da melhoria do ensino público. Resta saber quem é que, ao defender cotas raciais, nega isso como fundamental para todos?

Parecemos, nesta discussão, ter uma enorme dificuldade: reconhecer o racismo brasileiro - inclusive, se não principalmente, o institucional.

Há muito tempo reconheci isso. Até por dever de ofício e necessidade de compreender que país é esse onde a maioria da população é preta, pobre e analfabeta, considerando-se que jamais aceitei a tese de Lombroso.

Mas, ainda que não me reconheça racista, temo sê-lo, "intuitivamente". Ou culturalmente, para ser mais justa comigo e com milhares. Afinal, uma pesquisa do Instituto Perseu Abramo perguntava se os brasileiros reconheciam que havia racismo no Brasil. A resposta foi honestíssima: 84% disseram sim. Perguntados novamente se reconheciam-se como racistas, apenas 4% o fizeram. Ou seja, racista é o outro. Disto resultou uma belíssima campanha nacional: "Onde você esconde o seu racismo?"

Um abraço para o profesor.
Um beijão pra você.

PS: antes que o professor me leve a mal - e jamais tenho essa intenção - algumas afirmações não são irônicas ou cínicas. São realidade.

Juvencio de Arruda disse...

Bom dia, queridona. As avaliações devem seguir um quadro bem mais amplo do que experiências individuais. Quando a cotas foram discutidas por aqui, em 2002, manifestei-me contra, mas em conversas pessoais. Nunca votei ou decidi nada a respeito. Mas revi minha posição e hoje sou a favor, mesmo poderando as ressalvas do Alencar
Bjão

Bia disse...

Beijão, querido. E a saudade só aumenta

Juvencio de Arruda disse...

Pois é...faz muito tempo que não conversamos pessoalmente,hein?
A mixaria está saindo nesta semana..rs
Vamos lá de novo?
Mande um mail.
Bjão.