24.5.09

Duplo Dilema

Por Carlos Castilho, no OI, sob o título "A Crise dos jornais está na agenda, e a dos jornalistas?". Os grifos são do autor.

O grande assunto atual em todas as rodas de jornalistas é o futuro dos jornais. Todo mundo está preocupado com o possível desaparecimento da imprensa escrita, mas até agora poucos se deram conta de que a atividade jornalística também está em questão.
A preocupação da maioria dos jornalistas com a crise dos jornais está ligada diretamente à insegurança sobre o futuro de empregos, da estabilidade salarial e do guarda chuva de garantias sociais. É natural que seja assim, porque afinal de contas um emprego na industria de jornais, revistas, rádio e televisão é uma espécie de âncora num mercado de trabalho marcado pela instabilidade e fluidez.
É também um sintoma da dependência que os profissionais criaram em relação às empresas durante a época em que os jornais e os jornalistas tinham a exclusividade na produção de noticias. Os free lancers e autônomos eram uma exceção e de certa forma também um luxo, já que só os mais bem sucedidos na profissão podiam se arriscar a um vôo solo.
A internet e a avalancha informativa digital não mudaram apenas o modelo de negócios da imprensa ao causar a queda de receitas tanto com publicidade como em vendagem em quase todo o mundo. A Web, parte da internet, está também alterando a rotina e os valores da atividade jornalística, sem que este tema tenha sido até agora discutido em profundidade.
A maioria dos profissionais talvez ainda espere que os jornais consigam criar um novo modelo de negócios e aí tudo voltaria ao normal. Só que isso é uma ilusão. A imprensa vai descobrir um novo modelo de negócios mas é quase certo que ele terá muito poucas semelhanças com o atual, porque houve uma mudança irreversível na produção de informações. Ela não está mais concentrada nos jornais e assumiu um caráter descentralizado na internet.
Tudo indica também que a nova fórmula comercial da imprensa não estará apoiada na formação de grandes redações. Isto significa que a segurança do emprego em empresas jornalísticas deve ser descartada como perspectiva profissional futura, como afirma o professor Mark Deuze
[1], autor do livro Media Work e considerado o maior especialista mundial em mercado de trabalho na mídia.
Fica fácil então perceber que os jornalistas profissionais terão que enfrentar
duas perguntas incômodas:

1) O que o futuro reserva para a atividade, descartada a opção por jornais e revistas no formato tradicional;
2) Como será possível sobreviver numa nova realidade marcada pela participação dos cidadãos como produtores de notícias e pela necessidade de especialização para ocupar nichos informativos vagos até agora pela inexistência de público consumidor significativo?

A primeira pergunta é impossível responder dada a sua complexidade e principalmente à necessidade de que os profissionais iniciem um debate sério sobre a questão. Seria muita pretensão tentar uma resposta pessoal pois trata-se de um problema em que apenas a troca de experiências e conhecimentos permitirá chegar a conclusões minimamente realistas.
Já no como sobreviver, dá para alinhavar algumas possibilidades, com base na experiência de jornalistas que se aventuraram na blogosfera. É verdade que só uns poucos conseguiram até agora um nível de receita financeira equivalente ao que teriam num emprego convencional. Mas as possibilidades e desafios desta nova área informativa continuam seduzindo um número crescente de profissionais desiludidos com as redações.
Ainda com base nas experiências, tanto de profissionais como não profissionais, dá para colocar para discussão de jornalistas numa mesa de bar, três grandes questões relacionadas à produção de weblogs informativos:

1) Identificação de um nicho informativo;
2) Envolvimento pessoal na produção dos conteúdos noticiosos;
3) Formação de comunidades de informação.

O primeiro item é quase óbvio. Quem, por opção ou necessidade, entrar na blogosfera tem que procurar um diferencial para poder atrair visitantes para seu blog, página e agora também nos micro-blogs do Twitter. A Web tornou viável a chamada Cauda Longa
[2], que explica como nichos informativos podem sobreviver, até mesmo financeiramente, graças ao fim das limitações geográficas na rede mundial de computadores. Hoje a distância entre produtor e consumidor não é mais medida em horas ou quilômetros, mas em clics do mouse de um computador.
O segundo item é mais complicado porque quebra valores tradicionais do jornalismo como o distanciamento em relação aos fatos. Hoje, um blog informativo deve criar um diferencial em relação à mídia convencional ao estabelecer um relacionamento personalizado com o público. Um leitor de blog quer sentir a participação do autor na notícia porque isto é essencial para ele poder avaliar a credibilidade do material, já que há pelo menos 120 milhões de blogs em todo mundo, ao contrário de algumas dezenas de milhares de jornais impressos.
Finalmente o terceiro item amplia a mudança de rotinas e valores do ofício jornalístico num ambiente marcado pela avalancha informativa. O jornalista está sendo chamado a assumir funções de mediador de grupos de usuários da Web que fornecem dados, fatos e novidades para o profissional criar informações processadas e investigadas. Para criar esta rede de informantes, o jornalista terá que mudar o seu relacionamento com o público, coisa que não é fácil, conforme mostra a experiência de muitos com a gestão de comentários postados em blogs.
Cada um destes itens merece um detalhamento muito maior. Aqui eu só dei indicações gerais. O resto a gente vai ter que discutir, e muito, aqui no Código e fora dele.


[1] MarkDeuze produz os blogs Deuzeblog e Digital Media and Society .
[2] Detalhes no post Blogs descobrem nichos informativos e na Wikipédia.

3 comentários:

Mural de Marabá disse...

Um dilema para quem diz que é jornalista, formador de opinão, âncora, etc.

As três questões citadas no post:

1) Identificação de um nicho informativo;

2) Envolvimento pessoal na produção dos conteúdos noticiosos;

3) Formação de comunidades de informação.


Minhas conjecturas em relação às três questões:

1) cartel com exigência de "diproma", mesmo que o sujeito não saiba escrever corretamente. É responsabilidade moral do jornalista e advogado escrever corretamente.

2) perderam a oportunidade de mostrar credibilidade, quando atendiam a interesses pessoais ou a ordens de seus patrões. A população pode até ser burra, mas não é cega. Com o advento da internet, qualquer pessoa isenta e livre pode escrever. Até eu.

3) Idem item 1


Dificilmente essa categoria recupera a credibiidade. Mesmo que a internet venha ser controlada, como algumas autoridades internacionais já tencionam fazer. Haverá os informativos piratas dentro da grande rede.

Enquanto o fim não chega, pelo menos, recomendo, escrevam com imparcialidade, para terem um fim digno.

Marise Morbach disse...

Muito importante este debate, notadamente no que se refere aos jornalistas. No Brasil os cursos de comunicação estiveram por longo tempo em sintonia com as associações de classe. Por muito tempo os curriculos dos cursos refletiam as formas como estas associações conseguiam se fazer representar no mercado. Ocorre que a velocidade do sistema informacional está quebrando em grande velocidade os elos que mantinham estas correntes. A tal ética do jornalismo há muito foi às favas com a forma que associações e empresas fizeram acordos trabalhistas e outras cositas mais. A formação dos jornalistas pelas academias deixa muito a desejar, notadamente pela relação pouco humanista com a qual a teoria e a prática estabeleceram seus critérios de análise e aplicação no "mundo acadêmico".
No mercado real o problema é muito mais grave e podemos vê-lo logo aqui, na confusão entre liberdade de expressão e direitos individuais e sociais nos quais foram protagonistas as dois maiores jornais do Pará.
Não vimos nenhuma discussão consequente sendo levada pelas associações de classe. Os donos dos negócios são éticos quando a étiva dá lucro, e sofrem de grande amenésia. Esquecem que são mediadores de informação e não os "donos da verdade" parcial e tendenciosa que veiculam em suas páginas todos os dias na maior sem cerimônia.
O problema da formação dos jornalistas é ainda muito mais grave do que a baixa remuneração e a usência de discurso público por parte de seus representantes de classe. A web apenas nos ajuda a tornar evidente aquilo que estava latente: falta aptidão, de conhecimento humanístico, de capacidade reflexiva, de talento para lidar com a língua portuguesa e de coragem para o exercício do ofício é o perfil da grande maioria dos jovens que acreditam que o jornalismo é apenas uma função profissional como tantas outras. Nesta romântica relação estão muitos jovens que jamais exercerão o jornalismo e estarão fadados aos baixos salários, além de subordinados aos donos do negócio.

Juvencio de Arruda disse...

...ou da quitanda, como prefere LFP, ou das pocilgas como prefiro.