2.3.09

Os Hábitos Alimentares da Folha de SP

Na Carta Capital, por Maria Victoria Benevides*.

Quase ninguém lê editorial de jornais, mas quase todos leem a seção de cartas. E foi assim que tudo começou. Os fatos: a Folha de S.Paulo, em editorial de 17/2, aplica a expressão “ditabranda” ao regime militar que prendeu, torturou, estuprou e assassinou. O primeiro leitor que escreve protestando recebe uma resposta pífia; a partir daí, multiplicam-se as cartas: as dos indignados e as dos que ainda defendem a ditadura. Normal.
Mas eis que chegam a carta do professor Fábio Konder Comparato e a minha: “Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de ‘ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar ‘importâncias’ e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi ‘doce’ se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala – que horror!” (esta escriba). “O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17/2, bem como o diretor que o aprovou, deveria ser condenado a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana” (Prof. Fábio).
As cartas são publicadas acompanhadas da seguinte Nota da Redação – “A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente ‘cínica e mentirosa’.”
Pronto. Como disseram vários comentaristas, a Folha mostrou a sua cara e acabou dando um tiro no pé. Choveram cartas para o ombudsman do jornal – que se limitou a escrever, quase clandestino, que a resposta pecara por falta de “cordialidade”. Um manifesto de repúdio ao jornal e de solidariedade, organizado pelo professor Caio Navarro de Toledo, da Unicamp – com a primeira adesão de Antonio Candido, Margarida Genevois e Goffredo da Silva Telles – passa imediatamente a circular na internet e, apesar do carnaval, conta com mais de 3 mil assinaturas. Neste, depoimentos veementes de acadêmicos, jornalistas (inclusive nota do sindicato paulista), artistas, estudantes, professores do ensino fundamental e médio, além de blogs. Vítimas da repressão escrevem relatos de suas experiências e até enviam fotos terríveis. A maioria lembra, também, o papel da empresa Folha da Manhã na colaboração com a famigerada Oban.
O que explica essa inacreditável estupidez da Folha?
A meu ver, três pontos devem ser levantados: 1. A combativa atuação do advogado Comparato para impedir que os torturadores permaneçam “anistiados” (atenção: o caso será julgado em breve no STF!). 2. O insidioso revisionismo histórico, com certos acadêmicos, políticos e jornalistas, a quem não interessa a campanha pelo “Direito à Memória e à Verdade”. 3. A possível derrota eleitoral do esquema PSDB-DEM, em 2010. (Um quarto ponto fica para “divã de analista”: os termos da nota – não assinada – revelam raiva e rancor, extrapolando a mais elementar ética jornalística.)
Dessa experiência, para mim inédita, ficou uma reflexão dolorosa, provocada pela jornalista Elaine Tavares, do blog cearense Bodega Cultural, que reclama: “Sempre me causou espécie ver a intelectualidade de esquerda render-se ao feitiço da Folha, que insistia em dizer que era o ‘mais democrático’ ou que ‘pelo menos abria um espaço para a diferença’. Ora, o jornal dos Frias pode ser comparado à velha historinha do lobo que estudou na França e voltou querendo ser amigo das ovelhas. Tanto insistiu que elas foram visitá-lo. Então, já dentro da casa do lobo ele as comeu. Uma delas, moribunda, lamentou: ‘Mas você disse que tinha mudado’... E ele, sincero: ‘Eu mudei, mas não há como mudar os hábitos alimentares’. E assim é com a Folha (...). São os hábitos alimentares”.
O que fazer? Muito. Há a imprensa independente, como esta CartaCapital. Há a internet. Há todo um movimento pela democratização da informação e da comunicação. Há a luta – que sabemos constante – pela justiça, pela verdade, pela república, pela democracia.
Onde quer que estejamos.

*Maria Victoria Benevides é socióloga com especialização em Ciências Políticas e professora titular da Faculdade de Educação da USP.

7 comentários:

Raphael Teixeira disse...

A mesma folha que rebocou e andou a reboque da ditadura, a mesma gente que meteu o país naquela "fria(s)". É a mesma que esbanja elogios a Gilmar Mendes, e que estampa onde pode que Serra já ganhou em 2010, sem ter combinado nada conosco!

O problema ai já nem está mais no jornal, que chora as últimas lástimas dos neocons americanos, que envereda pelo caminho que fez da "grande mídia" o que chamamos de farinha do mesmo saco, que tem seu nome merecidamente incluido no PIG, cunhado por Paulo Henrique Amorim.

O problema maior é ver José Serra, um dos principais presidenciáveis, jogando o jogo dessa turma. Dentro do PSDB o então ministro da saúde José Serra parecia ser um contraponto à falida politica neoliberal, e agiu, poderiamos dizer hoje, como um desenvolvimentista!

Mas Serra, hoje, se alia a velha e truculenta direita, é tragado pelas últimas forças políticas que sobraram depois do furacão Lula, aquelas mesmas que criaram um sistema político a sua imagem e semelhança, e que tenta criar um apelido menos vergonhoso agora.

Pobre Serra, tão longe do Brasil e tão perto da Folha e da sua Ditabranda.

Anônimo disse...

A Folha errou. Errou e falhou feio.
Merece, sim, repúdio.
Imprensa independente também não existe.
Carta capital e seu editor Mino Carta ,por vezes, deixam escapar seu amor pela "democracia" de Fidel.

Bia disse...

Baoa tarde, Juca querido:

Quem quiser saber um pouco mais sobre a "luta democrática" da Folha, pode ler também Alípio Freire, no Brasil de Fato, Edição 313 - 20.02.2009, no artigo "De rabo preso com quem?"

Beijão.

Anônimo disse...

A Benevides dá a entender que os Governos dos petralhas são uma maravilha de democracia e transparência. Ainda que a Folha tenha seus comprometimentos, não deixa de ser verdade que a patota da qual ela faz parte nada diz das quadrilhas petralhas e nem dos regimes tipo Fidel/Chaves e outras porcarias.

Juvencio de Arruda disse...

Sua falta de respeito e equilpíbrio ao contestar a professora diz muito sobre vc,e o que defende.
Os "comprometimentos" que vc, desta vez com gentileza, atribui à Folha são, em verdade, conluio e associação para o crime, como farta e diariamente comprovado nos blogs de PHA, Nassif, Azenha, e tantos outros, nenhum deles petralhas.
Mas fica aí seu comentário, para que todos os leitores desta caixinha possam avaliar o "contraditório" possível da ditatura safada, covarde e assassina que se instalou no país nos anos de chumbo

Lúcia Brandão disse...

Juca,

Gostei dessa posição no Juventude em Pauta! que discute o impacto do editorial da Força Serra Presidente (FSP) na atual geração de jovens do Brasil.

"Mataram um estudante! Se fosse um filho seu?"

Essa era a pergunta dos jovens na passeata dos 100 mil, no Rio de Janeiro, contra a ditadura militar, em 1968.


Sendo levemente reducionista e considerando tão somente o meio urbano, essa foi uma geração que conheceu três destinos:


1) Quem partiu de um bom patamar em cima, virou new rich no Milagre Brasileiro.


2) Quem compôs aquele grupo que chamamos de jovens comuns, que tinha quase as mesmas opiniões que a geração de seus pais e sonhava com uma vida estável, bom salário, casamento tranquilo, profissão segura, regra geral terminou desgraçado como integrante da outra banda do Milagre: a que foi tragada pela desigualdade social, no processo mais assombroso de concentração de renda da história recente do país.


3) Quem partiu de cima ou de baixo e se engajou por um país democrático, desenvolvido, capaz de uma produção artística fenomenal gestada nas universidades, terminou executado, desaparecido, sequelado pela ditadura, na saga pessoal de cada um de resistir àquele crime em curso contra uma geração inteira e contra a nossa pátria-mãe tão distraída. Alguns sobreviveram, mesmo à caça continental de garotos de vinte e poucos anos conhecida como Operação Condor.


Otávio Frias Filho, o Tavinho, dono e presidente da Folha de São Paulo, rebento e herdeiro do recém-falecido Otávio Frias, estava entre o primeiro destino. Seu pai, amigo e colaborador da ditadura, cedia até mesmo furgões da empresa para o transporte de jovens ativistas para as câmaras de tortura que eram os DOI-CODIS e DOPS da vida. Uma também jovem jornalista chegou a ser demitida por justa causa (abandono de emprego) quando, na verdade, estava esquecida num porão da ditadura, grávida, vitimada pelo espancamento, abuso sexual e tortura. Conhecendo a estirpe dessa gente Frias, concluímos que a demissão fora mesmo, para eles, realmente uma justa causa. Ela lutava contra ou meramente criticava aquilo que pagava a mordomia da familia.


Pois que Tavinho, hoje um velho reaça que deve usar pijama com coelhinhos da Playboy, psicografou num recente editorial da Folha um texto em que chama a ditadura dos ratos na vagina, do pau-de-arara, dos choques elétricos nas genitálias, do esmagamento de unhas, arrebentação de dentes e ocultação de cadáveres, um negócio tão horrendo que seus amigos se tremem todos ao ouvirem a proposta de abertura de arquivos, de ditabranda (sic). Tiraram da cartola até mesmo um tal de instrumentos de acesso à justiça. Criticado por Maria Vitória Benevides e Fábio Konder Comparato na seção Carta do Leitor, o jornal acusou-lhes de cinismo por defenderem Cuba.


A real é que não se trata de Cuba, mas do Brasil e sobre isso a Folha confessou ter saudades da ditadura, mostrou-se conivente com aqueles crimes hediondos contra a humanidade, que não é P.N. de democrata, que faz parte dos liberais brasileiros que sonham com o casamento do livre mercado (este que morreu recentemente num infarto público barulhento) e fascismo. Tavinho não poderia ser solidário sequer com a geração que fora castrada e trucidada. Não fez parte dela. Seu conselheiro deve ser Jair Bolsonaro.


A Folha faz campanha abertamente para José Serra ser o sucessor do presidente Lula. Que defendem juntos o neoliberalismo já se sabe. Mas, Serra era o presidente da UNE que apoiou João Goulart no comício da Central do Brasil. Ele por pouco não foi assassinado pela ditadura chilena. Fez parte da geração de jovens que enfrentou a ditadura pelo direito de existir. O que o governador de São Paulo tem a dizer à atual geração de jovens brasileiros sobre isso? Permitirá e dará cheque em branco para que essa passagem desbotada na memória das nossas novas gerações seja pintada como Anos Dourados?


A Folha de São Paulo é um jornal recomendado nas escolas e nas universidades, como exemplo de boa informação, símbolo - como já fora a Veja antes de se desmoralizar - do estudante que queria se fazer ver como culto. Contudo, a partir da data do editorial, todas as vezes que um jovem minimizar as atrocidades da ditadura, taxar seus congêneres de 40 atrás de terrorista, apontar um regime autoritário como saída para resolver os problemas do Brasil, aplaudir o presidente do Supremo falando que não pode matar jagunço, mas que nem um ai geme sobre as chacinas de sem-terra ou achar bonito criminalizar quem luta por reforma agrária, estará indelével a digital do jornal.

Anônimo disse...

O das 3:38 deve ser daqueles que tem orgasmos com cenas de tortura e lê em Maria Victória Benevides o que ela não escreveu. Além de fascista, um parvo. O Juventude em pauta acerta na mosca. A Folha simplesmente se entregou (convenhamos, desta vez ela foi honesta, confessou-se colaboradora da "ditabranda".