20.12.08

Estado Por Fazer, República Inacabada


Por Mino Carta.

Que diria Raymundo Faoro desta hora brasileira? Dirijo a pergunta aos meus nostálgicos botões ao ser lançado pela Editora Globo um livro que reúne entrevistas do grande pensador. O momento da publicação não foi escolhido por acaso, estamos no fim do ano do cinqüentenário da primeira edição de Os Donos do Poder pela mesma editora. Obra-prima de Faoro, chave definitiva para entendermos o Brasil e a nós mesmos.
Intitulado A Democracia Traída, organizado por Mauricio Dias, por longos anos ligado a Faoro pela admiração e pelo afeto, e prefaciado pelo acima assinado, o livro coleta quinze entrevistas de Faoro a equipes que dirigi entre 1979 e 2002, as sete últimas em CartaCapital.
O título resume o pensamento que perpassa e sustenta a fala do entrevistado, alicerçada no ceticismo e temperada pela ironia. Trata-se da demonstração, inexorável, arrisco-me a dizer, do teorema do Hércules-Quasímodo, ser contraditório, patético na sua ambigüidade, destinado a semideus e condenado a Corcunda de Notre Dame.
É a condição de um país excepcionalmente favorecido pela natureza e entregue até hoje às vontades e artimanhas de uma elite feroz. Em pouco mais de duas décadas, ao longo das entrevistas que se tornaram tradição nas nossas redações e nas nossas vidas, Faoro denuncia, como escreve Mauricio Dias, uma negociação política “realizada segundo os princípios daquelas transações que resultam sempre na frustração dos movimentos sociais e na conseqüente traição da democracia”.
Resultado: “A anistia para os torturados implicou absolvição para os torturadores” e a campanha das Diretas Já conduziu “à eleição indireta e desdobrou-se a seguir na vitória de um rebento do regime popular”. São os efeitos da eterna conciliação oligárquica, boa parte antecipados nas entrevistas, o que me levou a batizar Faoro de O Profeta.
Ele, obviamente, esquivou-se. Não fugiu, porém, à explicação. “O profeta – disse no dia 6 de dezembro de 2000 –, não é exatamente quem prevê coisas. Isso é uma tradição tardia na história do judaísmo. Profeta é a pessoa que tem uma mensagem e que vem para dizer alguma coisa, é esse o sentido original da palavra. E que vem, inclusive, para fazer a crítica.” Como se vê, não me enganei.
E ele foi, desde sua saída da presidência da OAB, meu conselheiro, mentor e guia, além do amigo de todas as horas. E foi, estou certo disso, para todos nós que aportamos à CartaCapital, depois de passar por IstoÉ, pelo Jornal da República, por Senhor, por IstoÉ Senhor, por IstoÉ segunda fase. Agora nos faz aquele gênero de falta que não é possível preencher.
Volta e meia me ocorre imaginar o que ele diria diante de cada circunstância. A última vez em que pude interrogá-lo foi no começo de 2003. Conto no prefácio: “Quando finalmente Lula se elegeu, no segundo turno do pleito de 2002, Raymundo já estava no hospital, do qual só sairia para o enterro, em abril do ano seguinte. Ficou emocionado com a vitória do seu candidato, disse estar com sorte ao participar de um momento que já perdera a esperança de viver. Mas em fevereiro de 2003 manifestava algumas dúvidas quanto aos primeiros passos do novo governo”. E que diria hoje, quando o bastião do Estado de Direito atende pelo nome de Gilmar Mendes? Ou quando o Banco Central do senhor Meirelles mantém os juros na estratosfera enquanto os Estados Unidos praticamente os zeram? Ou quando a maioria dos brasileiros apóia incondicionalmente o presidente Lula, mas quem manda ainda é a minoria branca? Ou quando já sabemos que em 2010 não será eleito outro torneiro mecânico? Etc. etc. e etc.
Creio que o profeta-mensageiro registraria o resultado de suas mensagens. Em 1998 dizia: “O eventual governo Lula não será revolucionário, a idéia da revolução já está banida da cabeça dele”. E em maio de 2002, ao acreditar na possibilidade da vitória de Lula: “O PT poderia mudar a orientação histórica do País, que é um país de exploração, o pobre é cada vez mais pobre. Lula significaria a vitória de uma camada contra a outra. Governar, porém, contra as pessoas que no Brasil estão por cima é quase temerário. Por outro lado, se Lula for eleito e contemporizar (...) passará a ser um governante como os outros. Essa mudança é o passo mais difícil de ser dado”. Democracia, dizia Faoro, é igualdade e distribuição de renda, metas ainda distantes no Brasil de hoje. Por isso entendia que o confronto entre direita e esquerda justifica-se plenamente neste país cujo Estado é por fazer, nesta República inacabada.

4 comentários:

Raphael Teixeira disse...

Juca, escolhi este ano que se vai para ler pensadores brasileiros, a safra foi boa (Celso Furtado, Caio Prado, Florestan, Darci, Freire, Buarque...), estava cheio dos europeus, e por sua sugestão estou fechando a conta com a missão de decifrar a mensagem de Os Donos do Poder de Raymundo Faoro, pela densidade da obra a leitura deve entrar por 2009!

Juvencio de Arruda disse...

Muito bem escolhida sua bibliografia, obras seminais.
Vá sim, ao Faoro, um homem raro.
E fique de olho em alguma palestras e/ou conferência sobre ele da profa. dra. Kátia Mendonça, da UFPA, sua aluna, orientanda e amiga.
Ano que vem, de um modo muito interesante, todos os que vc citou "virão" à Nova Déli.
Mas nada posso adiantar, ainda, sobre isso.
E aí? Reveillon na praia com a morena...rs?
Abs, Msc.

Raphael Teixeira disse...

Nossa! Essa turma toda em Nova Déli! Fiquei curioso, mas vamos aguardar. Quando for possivel nos informe, inclusive sobre as palestras da Dra. Kátia.

Fim de ano na praia, com a morena, claro!

Grande abraço!

Anônimo disse...

Com certeza virão através de uma mesa branca!!!