25.4.09

Barbosa Lê Carta

Editorial da edição das bancas da CartaCapital, por Mino Carta.

E as Excelências partiram para a briga. O fraseado solene das litigantes parecia indicar o comparecimento transcendente dos deuses da tragédia grega ou dos fantasmas de Ulpiano, Modestino e Gaio. Talvez uns e outros, sem excluir Sólon. Vale dizer, de todo modo, que a acusação dirigida pelo ministro Joaquim Barbosa ao presidente do STF, de destruir a Justiça brasileira, é a primeira manifestação pública e de grande peso a denunciar os comportamentos de Gilmar Mendes.
E no momento em que Barbosa invectiva, “Vossa Excelência quando se dirige a mim não está falando com seus capangas de Mato Grosso”, não me contive e anunciei aos meus espantados botões: o ministro lê CartaCapital. E mais: dispõe-se a repercutir as informações da revista, ao contrário da mídia nativa, obediente à omertà conveniente ao poder.
Nas nossas páginas, a destruição “da credibilidade da Justiça brasileira”, como diz o ministro Barbosa, tem sido um dos temas principais há um ano, ou seja, desde o instante em que Gilmar Mendes assumiu a presidência do Supremo.
Cito, em resumo, Wálter Fanganiello Maierovitch, ao lembrar que neste período “Mendes notabilizou-se pelo hábito de prejulgar” e “sobre antecipações de juízos (...) teceu considerações fora dos autos sobre financiamentos aos sem-terra e sobre a revisão da Lei da Anistia”.
“Na presidência, Mendes estabeleceu e sedimentou – escrevia na edição passada Fanganiello Maierovitch – uma ditadura judiciária (...) de maneira a transformar o STF numa casa legislativa onde o emprego de algemas em diligências policiais, em vez de lei, virou súmula.”
Os jornalistas costumam ser sovinas na hora de criticar Gilmar Mendes, mesmo quando, por ocasião da segunda prisão de Daniel Dantas em consequência da Operação Satiagraha, atropela a decisão do juiz de primeira instância, Fausto De Sanctis, ao conceder habeas corpus ao banqueiro. Ou quando, em nome de um grampo que não conseguiu provar, e até não sabe se efetivamente se deu, exige o desterro do delegado Paulo Lacerda.
Claro que a revista Veja, bíblia dos privilegiados, prestou-se ao jogo de Mendes, em um caso e noutro, em busca do resultado final, o enterro da Satiagraha. Desterro, enterro. Esta sim, uma operação com fartas chances de êxito.
São, aliás, muito peculiares os cruzamentos possíveis deste enredo, sem contar os equívocos. Por exemplo, não me canso de lembrar que Luiz Eduardo Greenhalgh, além de advogado de Cesare Battisti, em nome de uma discutível e mesmo improvável solidariedade esquerdista, também presta seus serviços ao já citado Daniel Dantas, responsável pela entrega à semanal da Editora Abril de um dossiê falso destinado a provar a existência de contas em paraísos fiscais do presidente Lula ou outras personalidades. Ah, sim, de Paulo Lacerda inclusive. A gente sabe, o mundo é pequeno.
E por exemplo. Na semana passada contei de um telefonema de Brasília recebido no dia da primeira prisão do orelhudo no desfecho da Satiagraha. Figurão do governo me pega na minha chegada à redação e diz eufórico: “Viu, viu o que a gente fez?” Pois o figurão inclinado a entusiasmos temporários veio visitar-me na redação cerca de um mês depois.
Pretendia informar-me a respeito do destino de Daniel Dantas: que eu não perdesse a esperança, um grande vilão não escaparia à justa punição. Sua fala soava como uma satisfação não solicitada, mesmo porque não carecemos de vilões e CartaCapital não cultiva com Dantas uma pendência pessoal. Contudo recomendou-me paciência. Com bonomia. Não custava aguardar, e não adiantou exprimir algum ceticismo quanto ao negrume do futuro dos vilões.
Pergunto-me agora o que espera o ministro Joaquim Barbosa. O ostracismo? A julgar pelas primeiras reações midiáticas, a execração pública, como medida preliminar. Vale acentuar, porém, que o iniciador do conflito foi Gilmar Mendes. Primeiro, na repreensão indireta a uma ausência justificada do seu par. Depois, com a grave censura ao acusá-lo de usar critérios classistas nos seus julgamentos.
Triste, lamentável episódio, e CartaCapital entende as razões de quem assinou a solidariedade ao presidente do STF com o propósito de evitar danos mais graves à instituição. Mas o que não é triste e lamentável no Brasil de hoje nos mais diversos quadrantes?

----

No Informe JB, edição de hoje do Jornal do Brasil, a informação de que a caixa de e.mails de Barbosão está abarrotada.
E no Painel, da Folha de SP deste sábado, um aviso: é Barbosão quem presidirá o TSE nas eleições de 2010.

----

Alterado às 12:14 para reprodução da íntegra do Editorial.

7 comentários:

Lafayette disse...

...e não podemos esquecer (e nem "eles") que o Barbosão é o responsável pelo julgamento do Caso Mensalão.

Alessandra disse...

Também pensei o mesmo que o Mino. Viva...rs. Já posso ir às ruas neste sábado, depois de ter lido este post. rs. bjs

Juvencio de Arruda disse...

Tomara que aplaudam vc pela rua.
Vc merece...rs
Bjs

Anônimo disse...

Está imperdível o créu do Barbosão no you tube.

Anônimo disse...

Quero ver se este Barbosão é macho é por ocasião do julgamento do pessoal do mensalão? Aí sim quero ver se o mesmo é brabo ou este episódio foi só jogo de cena para a platéia. No fundo acho que foi uma grande falta de respeito sua, visto que o Ministro Gilmar Mendes é o Presidente do STF, portanto seu superior. Minha mãe dizia que quem tem vergonha não faz vergonha para os outros.

Anônimo disse...

Anônimo das 3:55, nenhum ministro do STF é superior aos outros, a presidência é um cargo em que eles se revezam. quem deveria ter vergonha era o Gilmar Mendes, que faltou ao decoro ao chamar a atenção do colega. Então, siga o conselho de sua mãe, e não faça vergoha para os outros, tá?

Anônimo disse...

Ao anonimo das 4:27 - Alem do Ministro não ir trabalhar quando devia, ainda quer cantar de galo. Todos sabemos que o Ministro Gilmar Mendes não é flor que se cheire, mas o Ministro Barbosa deveria te-lo respeitado. Este é o meu pensamento. Por sinal onde está a hierarquia?